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Futebol Internacional


O mistério de Malta e a negativa da Fifa

  • Federação divulga levantamento sobre transferências de jogadores e, quando interpelada, recusa-se a detalhar
  • Arquipélago europeu está no top 5 de transações de futebolistas para o Brasil, e não se sabe quem são eles

A Fifa divulgou comunicado com um balanço das negociações de futebolistas na janela de janeiro. Relatou que houve “mais de 5.900 transferências” e “mais de US$ 1,9 bilhão gasto pelos clubes no futebol profissional masculino”.

Quando recebo esse tipo de conteúdo, meu primeiro ato é saber sobre o Brasil. Que figurou no topo de contratações, com 456 (7,6%) do total de 5.973, seguido por Espanha, Argentina, Inglaterra e Portugal.

Chamou-me a atenção o arquipélago de Malta na quinta colocação entre os países que mais enviaram jogadores ao Brasil. Foram 18, atrás de Portugal (42), Japão (27), Uruguai (25) e Colômbia (19).

Pessoa encostada em parapeito de pedra observa porto com barcos ancorados ao entardecer em Valletta (Malta). Três postes de luz acesos iluminam a cena urbana ao fundo.
Vista do Grand Harbour ao alvorecer em Valletta, a capital de Malta, um dos menores países da Europa

Darrin Zammit Lupi – 15.mai.24/Reuters

Conceituada no turismo, possuidora que é de monumentos históricos e de belezas naturais, e palco de gravações cinematográficas (oferece infraestrutura e cenário atrativo), Malta é uma nulidade no futebol.

País europeu minúsculo, com área de 316 km² (menos que a de Belo Horizonte) e população de 569 mil habitantes (menor que a de Florianópolis), a ex-colônia britânica nunca esteve perto de ir a uma Copa do Mundo. A seleção ocupa a 161ª colocação no ranking da Fifa (de um total de 211 nações), logo atrás da africana Essuatíni (antiga Suazilândia) e de Vanuatu, na Oceania.

Seus clubes jamais estiveram na fase de grupos (atualmente grupo) da Champions League, e sua liga de futebol é fraquíssima. Você sabe o nome de algum dos 12 times da primeira divisão? Eis os três que são papa-títulos no Maltão: Floriana, Sliema Wanderers e Valletta.

Onze jogadores de futebol vestindo uniforme preto e vermelho do Hamrun Spartans, de Malta, posam alinhados no campo de um estádio. O goleiro está ao centro, usando camisa verde clara. Arquibancadas com poucos torcedores aparecem ao fundo.
Jogadores do Hamrun Spartans, vice-líder do inexpressivo Campeonato Maltês, posam para foto antes de partida no Estádio Nacioal de Ta’Qali

Darrin Zammit Lupi – 23.out.25/Reuters

O mistério é este: por que Malta aparece como grande exportador de pé de obra para o Brasil? Não sei. Perguntei à Fifa, continuei não sabendo. Pedi também nomes dos atletas (que não são malteses, seguramente), tive o pleito recusado.

Só soube da federação que todas as 18 transferências foram de jogadores com contrato finalizado e que na janela do janeiro anterior (em 2025) ainda mais futebolistas (26) que estavam registrados lá se transferiram para cá.

A entidade máxima do futebol tem as informações, mas não as detalha. Tento entender a razão de alguém divulgar um produto interessante e travar o aprofundamento do mesmo. Outro mistério.

Busquei alternativamente uma explicação, e a conclusão é que Malta é um local de alto registro de jogadores por conveniência financeira. Os impostos cobrados, devido a benefícios ofertados pelo governo, são consideravelmente mais baixos que em países que são vitrines futebolísticas. É uma espécie de paraíso fiscal.

Agentes de jogadores abrem empresas em Malta e os vinculam por contrato a um clube local. Depois, ocorrem as tratativas com uma equipe de centro de maior visibilidade –como Portugal–, obtendo-se a vantagem de pagamento menor de tributos ao estabelecer essa relação internações.

Ilustração mostra um cartório de futebol em Malta com placas indicando benefícios fiscais offshore. Um homem entrega um saco de dinheiro a um funcionário que oferece um contrato com taxas e comissões. Notas voam ao redor sob um sol sorridente. Um barco com a palavra 'Empréstimo' transporta dois jogadores do Brasil para Portugal, com uma placa indicando transferências FIFA de Malta para Brasil. Ao fundo, paisagens de Portugal e Brasil são visíveis.

Luís Curro/Ilustração gerada por IA

O empresário, na venda ou no empréstimo, ganha; o clube (que cobra taxas para servir de intermediário, de “ponte”) ganha; e o país Malta, pela quantidade (o imposto é menor, porém as transações ocorrem em fluxo elevado), ganha.

O jogador não tem vantagem, já que paga imposto sobre seus rendimentos no país em que está atuando.

Mistério, ao menos esse, deslindado: os futebolistas negociados estão vinculados a Malta, mas não jogam em Malta. Que, infere-se, é um “cartório do futebol”: serve para registro, e só.

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