Pedro Cesarino revê as estruturas de poder na Amazônia em livro
Pedro Cesarino revê as estruturas de poder na Amazônia em livro
📰 Fonte: Geral – rss.uol.com.br
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Há algo de podre na Cidade da Fronteira, e os urubus farejam a catinga nesse lugarejo fictício na Amazônia. Nele, sete rapazes indígenas foram assassinados e jogados em um lixão. Mãos atadas, tiro na nuca, tornozelos amarrados. Um cenário brutal e tragicamente reconhecível no Brasil atual. Identificar e enterrar os mortos é direito negado aos indígenas de aldeias próximas. Maya é a mãe de um deles e se desespera por não saber o paradeiro do filho, de quem nunca saberemos o nome.
Na esteira dos romances “Rio Acima” e das duas novelas de “A Repetição“, o filósofo e antropólogo Pedro Cesarino desdobra seu projeto ficcional e constrói uma narrativa que problematiza estruturas de poder a perdurar no tempo.
Na lógica colonialista, uma delas sempre se valeu das práticas pedagógicas, como no arremedo de curso oferecido pela prefeitura para jovens indígenas em “Os Urubus Não Esquecem”. Abusos se multiplicam e nada ali educa, perpetuando a humilhação e rendendo trocados para quem já desvia muito dinheiro em variados esquemas de corrupção.
No romance estruturado em capítulos ágeis, indígenas e “brasileiros” se misturam e disputam território: de um lado, uma vida vinculada à natureza e seus ciclos; de outro, as moças da cidade, o forró e a bebida. Para o povo da cidade, os indígenas não passam de caboclos fedidos, “igual bicho”, enquanto na perspectiva do povo da floresta os brancos são decaídos, comedores de alimento morto e enlatado.
Apesar das evidentes dicotomias, o livro evita embarcar em uma visão purista de uns e de outros. O autor é certeiro quando mira nas zonas de fronteira, explorando contradições e complementariedades entre modos de vida distantes —às vezes é fascinante para o filho de Maya experimentar a cultura em que exista o celular, o pen drive e a cocaína, outras vezes é da palavra assoprada pela temida pajé local que vem a cura de uma grave doença de branco.
Por breves momentos, é possível alguma troca genuína, mas a regra geral chega nos olhares tortos e no confronto, como na paixão do rapaz por Nashielly, garota branca da Cidade do Jambeiro, que culmina em desolação e violência.
Em um cenário de rios dragados, solo destruído e de um “veneno que invade a terra e escorre pelos cantos do céu”, prevalece a nota fiscal fria e o desvio de verba, em negociatas que envolvem Glauber, agroboy e filho do prefeito da cidadezinha amazônica.
Na lei da escopeta e da motossera, o tráfico de droga se esconde nos troncos de madeira destinada à exportação. Picanha, orfão indígena que abandonou à força sua cultura, está a serviço daqueles que o brutalizaram, fiscalizando as tenebrosas transações da mercadoria destinada ao hemisfério norte.
Em meio à chacina dos jovens, surge Noma, a pajé encontradora de caminhos, que se empenha em ajudar Maya na busca pelo filho. Ela é uma “garota-rapaz”, acolhida pelos seus, mas perseguida por Glauber, fascinado pelo mistério de sua natureza dupla. Ao sintonizar-se com manifestações do mundo vegetal e animal, espíritos e encantados, Noma protagoniza cenas de grande beleza, construídas em torno de imagens da lua, da crisálida e do casulo.
Em contraponto à sensibilidade dessa figura de encruzilhada, Cesarino oferece ao leitor uma espécie de romance-carniça. O sinal gráfico não é gratuito, em uma narrativa que multiplica impasses e identidades hifenizadas, como a da Mulher-urubu e da gente-queixada. A trama convida a escutar a sabedoria dos urubus, estranhas aves que trazem no estômago “a memória dos acontecimentos”. Um saber que habita as entranhas, digerindo no ventre o que já não vive e precisa ser transmutado.
“Os Urubus Não Esquecem” expõe sem dó as vísceras apodrecidas da dita civilização, e pergunta o que é ser um brasileiro neste conflagrado século 21. A resposta não vem sem dor, mas ainda há espaço para sonhar outras possibilidades. Como afirmou o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, os indígenas poderiam nos ensinar a viver melhor em um mundo cada vez pior.
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