Família que escravizou mulher até os 90 anos tem R$ 2 mi de bens bloqueados

Família que escravizou mulher até os 90 anos tem R$ 2 mi de bens bloqueados

Agripina Germano Bellato, filha de pais escravizados em fazendas no Espírito Santo, trabalhou, sem receber dinheiro e sem descanso, para diferentes núcleos da mesma família. Dos 15 aos 90 anos. No Rio de Janeiro e também no Espírito Santo. Trata-se, segundo a OAB-RJ (Ordem dos Advogados do Brasil do Rio), da brasileira há mais tempo escravizada no Brasil.
Após denúncia oferecida pelo MPT (Ministério Público do Trabalho) em 31 de janeiro deste ano, a Justiça do Trabalho determinou, em 3 de fevereiro, que o único imóvel listado no espólio da família que manteve Agripina escravizada por 75 anos fosse arrestado. O apartamento, avaliado em R$ 2 milhões, fica no Jardim da Penha, bairro valorizado de Vitória.
O que aconteceu
Medida tem como objetivo garantir crédito à Agripina. Segundo a Justiça, a tutela cautelar é necessária para assegurar o resultado da demanda do processo que a vítima move contra integrantes da família que a escravizou por mais de sete décadas. A defesa da idosa requer pagamento de verbas trabalhistas e indenizatórias.
A história chegou à polícia após o filho de Agripina tentar resgatá-la. Em 4 de julho de 2025, o filho da vítima, que é registrado com os sobrenomes dos empregadores, procurou a Polícia Civil do Rio de Janeiro para registrar que sua mãe havia desaparecido. No depoimento, contou que foi criado pela ex-patroa de sua mãe desde seus 5 anos, quando Agripina foi obrigada a sair do Espirito Santo rumo ao Rio.
Em 8 de outubro de 2025, Agripina foi ouvida pelo MPT e confirmou ter sido mantida em regime análogo à escravidão. Disse que nasceu em 10 de novembro de 1935 na Fazenda São Domingos, no Espírito Santo, onde seus pais moravam e também eram escravizados. Afirmou que era obrigada a trabalhar desde criança na lavoura de café, aipim e batata-doce.
Terror diário
Em dado momento, os pais de Agripina foram embora da fazenda. Agripina contou ao MPT que, desde então, foi morar com uma mulher em Vitória. Nessa casa, fazia os serviços domésticos. Depois, foi morar com a filha dessa mulher, na mesma função, em Niterói (RJ). Disse que mãe e filha que a escravizaram por anos “às vezes pagavam uma merreca de nada ou às vezes nada”.
Quando a mulher de Niterói morreu, Agripina foi levada para trabalhar com outra mulher do mesmo núcleo familiar, na praia de Copacabana, zona sul do Rio. Quando essa pessoa também morreu, ela não parou de ser escravizada: continuou em Copacabana, trabalhando na casa do filho dessa mulher.
Ao MPF, Agripina disse que não sabe ler, nem escrever. Afirmou que nunca fez amizades, que não tem contato com familiares, mas tinha um caderninho com anotações de telefones de sobrinhos. No entanto, na última casa onde foi escravizada, certa vez arrancaram a página com as anotações e jogaram o papel fora.
A vítima narrou que na última casa era obrigada a cozinhar, cuidar da roupa, da limpeza e arrumação das casas. A rotina era diária, sem descanso aos sábados e domingos tampouco férias. A rotina começava às 8h, servindo café, e se encerrava por volta das 19h. Na primeira casa era ainda pior: trabalhava o dia inteiro, porque tinha que cuidar dos filhos da patroa.
O relato impressiona ao descrever uma história geracional em que sua vida, desde criança, se resume a exploração, sempre à disposição de pessoas com ligações familiares entre si, muitas vezes sem qualquer remuneração e sem condições de ter o mínimo de autonomia em sua existência.
Procurador do MPT Thiago Gurjão Alves Ribeiro
Quem cuida também foi escravizada
A pessoa que hoje cuida de Agripina também prestou depoimento ao MPF. Disse que também prestou serviços, desde criança, ao mesmo grupo familiar. E que conhecia Agripina como trabalhadora doméstica da família há mais de 60 anos.
A cuidadora também é do Espírito Santo. Ela narrou que trabalhou para diferentes famílias desde os 5 anos, quando sua mãe morreu. Aos 13, passou a ficar sob responsabilidade de uma mulher que morava no Rio de Janeiro. Por anos, foi obrigada a trabalhar para diferentes amigas dessa mulher.
Quando a irmã da cuidadora se casou, conseguiu sair da situação de escravizada. Nesse momento, Agripina entrou no seu lugar. Foi assim que se conheceram.
A cuidadora recebe dos sucessores dos escravizadores um valor mensal de R$ 1 mil para custear os cuidados com a idosa, além do plano de saúde. Agripina recebeu R$ 30 mil de verbas rescisórias referentes ao trabalho mantido na última casa onde morou em Copacabana.
Estilo de vida ‘que ela queria’
O MPF ouviu três sucessores da família que manteve Agripina escravizada. Eles corroboraram a denúncia de que ela foi vítima dos familiares. Uma delas confirmou que Agripina contava não receber salário para trabalhar. Outra disse que, por não conhecer ninguém no Rio, passava os finais de semana na casa da família. Uma terceira disse que ela nunca andou de ônibus, metrô e só andava por Copacabana por ser o estilo de vida “que ela conheceu e o que ela queria”.
O procurador do MPF escreveu na denúncia que o depoimento de Agripina e os elementos colhidos são claros. “Indicam que, assim como seu pai, ela foi submetida a condições análogas às de escravo, eis que sujeita desde criança a condições de vida e trabalho que não lhe permitiam ter uma existência plena e com autonomia”.
Ainda que posteriormente, tal como ocorrido no fim de sua vida laboral, após a sucessão formal de empregadores domésticos do mesmo grupo familiar, tenha recebido remuneração, já vivia então as consequências de uma existência desprovida de dignidade e autonomia, em condições de vulnerabilidade das quais se beneficiaram os sucessivos tomadores de serviço.
Thiago Gurjão Alves Ribeiro, procurador
Em 3 de fevereiro de 2026, a juíza do Trabalho substituta Clarissa Souza Polizeli determinou o arresto do imóvel da família que escravizou Agripina: “Revela plausibilidade jurídica suficiente quanto à existência de relação de trabalho doméstico prolongada, com alegadas violações graves de direitos fundamentais trabalhistas e existenciais, inclusive com referência a possível submissão da trabalhadora a condições análogas à de escravo, situação que, em tese, pode ensejar condenações de natureza trabalhista e indenizatória.”
O trabalho doméstico constitui, em todo o mundo, uma das situações de maior vulnerabilidade à exploração do trabalho escravo. Embora representem, de acordo com as estimativas da OIT (Organização Internacional do Trabalho), apenas cerca de 1,7% do total dos trabalhadores do mundo, trata-se de um dos cinco setores de maior prevalência de trabalho escravo no mundo.
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📰 Fonte: UOL Notícias
🔗 Link original: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2026/…
Publicado automaticamente pelo Sistema Itaquera News em 21/02/2026 às 12:45















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