Berlinale premia filme sobre artistas perseguidos em edição de polêmica política
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📰 Fonte: Geral – rss.uol.com.br
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“Gelbe Briefe” do cineasta alemão İlker Çatak, venceu o Urso de Ouro do 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim. O anúncio foi feito neste sábado (21) por Wim Wenders, presidente do júri. Çatak, de origem turca, utiliza Berlim como se fosse Ancara, a capital da Turquia, para contar a história de um casal de artistas perseguido por mecanismos do Estado.
No centro da polêmica que contaminou o festival, Wenders afirmou que “Gelbe Briefe” —que significa cartas amarelas— era um alerta sobre os riscos da onda de autoritarismo atual.
“Salvation”, do turco Emin Alper, levou o Urso de Prata como grande prêmio do júri com a história de uma disputa interna de um clã nas montanhas da fronteira com a Síria.
Lance Hammer levou o Urso de Prata como prêmio do júri pelo sensível “Queen at Sea”, relato de uma filha, Juliette Binoche, lidando com a demência da mãe, Anna Calder-Marshall. A atriz de 79 anos dividiu o prêmio de performance coadjuvante com Tom Courtenay, 88, em um dos raros momentos em que a emoção superou a política na cerimônia.
A fotografia do filme de Hammer, diretor indepente americano, leva a assinatura do brasileiro Adolpho Veloso, que concorre ao Oscar por “Sonhos de Trem”.
O Urso de Prata de melhor direção foi para Grant Gee por “Everybody Digs Bill Evans”, o relato de alguns meses da vida do pianista Bill Evans, filme realizado em preto e branco, muito bem conduzido, mas que não habitava a lista de favoritos.
O Urso de Prata de melhor performance, por outro lado, seguiu a lógica. Sandra Hüller, conhecida por “Anatomia de uma Queda”, tem uma atuação impecável como uma mulher se fingindo de homem na Alemanha do século 18 em “Rose”.
A cerimônia de premiação não fugiu à escrita da edição deste ano. Ao receber o Urso de Ouro de melhor curta por “Someday a Child”, a diretora libanesa Marie-Rose Osta foi ao centro da polêmica que rondou o festival, a guerra Israel-Hamas.
“Fiz um filme sobre uma criança com superpoderes que derruba dois jatos de combate israelitas porque os seus sons intrusivos a acordam do sono. Isso é cinema. Mas, na realidade, as crianças em Gaza, em toda a Palestina e no meu Líbano não têm superpoderes para se protegerem das bombas israelitas”, disse a diretora.
Na sequência, Abdallah Alkhatib, diretor e roteirista de “Chronicles from The Siege”, premiado na mostra Panorama, subiu ao palco com uma bandeira da Palestina. “Sou um refugiado na Alemanha e isso pode me prejudicar, mas não vou me calar sobre o genocídio de Israel em Gaza.”
Alper, ao receber o Urso de Prata, também lembrou de Gaza. Citou ainda a violenta repressão estatal aos manifestantes do Irã e a situação dos curdos em seu país.
A polêmica em torno do caráter político do festival e a necessidade ou não de os cineastas se manifestarem vem desde o dia da abertura, quando Wenders declarou que o cinema era “o oposto da política”. Ele defendia a posição assumida minutos antes pela colega de júri Ewa Puszczynska, produtora polonesa de “Ida” e “Zona de Interesse”.
Um jornalista havia perguntado como o júri lidava com o fato de o festival ter como principal patrocinador o governo alemão, que “apoia a genocídio em Gaza”. Puszczynska disse que “os filmes não são políticos no sentido literal” e que a pergunta era “injusta”. Foi a fala de Wenders, porém, que marcou quase todas as entrevistas relacionadas à Berlinale.
Foi citando o diretor de “Asas do Desejo” que a escritora indiana Arundhati Roy anunciou sua saída do festival. Indicado ao Oscar por “A Voz de Hind Rajab”, a cineasta tunisiana Kaouther Ben Hania recusou o prêmio do Gala Cinema for Peace, evento que ocorre em paralelo ao festival.
Dias antes, 81 profissionais de cinema que estão ou já passaram pela Berlinale pediram em carta que o festival se posicione sobre a ação de Israel em Gaza, como já fizera em edições anteriores com a situação de direitos humanos no Irã e a invasão russa na Ucrânia.
Autor da ofensiva original sobre o júri, Tilo Jung, um podcaster alemão, tem longo histórico de provocações e chegou a bater boca com outros profissionais de imprensa na sexta-feira (20), ao fim da entrevista com o elenco de “Josephine” —drama dirigido por Beth de Araújo, americana de pai brasileiro. Uma colega da Jung havia tentado repetir a pergunta sobre Gaza para o ator Channing Tatum, mas foi interrompida aos gritos por outro jornalista.
“Somos uma instituição cultural muito visível. Somos uma instituição da qual as pessoas esperam muito”, disse na cerimônia de premiação Tricia Tuttle, diretora do festival que, como Wenders, foi alvo de pesadas críticas na última semana.
“Precisamos aceitar o fato de que estamos vivendo um momento polarizado e abraçar a comunidade que construímos juntos, porque criticar e expressar a nossa opinião faz parte da democracia, assim como discordar.”
À frente do festival há dois anos, Tuttle chegou a publicar uma carta tentando em vão apagar o incêndio provocado por Wenders. Neste sábado, ela afirmou que o fato de a Berlinale ter sido “emocionalmente carregada” neste ano não poderia ser considerado uma falha. “Isto é a Berlinale fazendo seu trabalho, o cinema fazendo seu trabalho.”
Depois do Urso de Prata para “O Último Azul”, de Gabriel Mascaro, no ano passado, a produção nacional teve forte presença nas mostras paralelas da Berlinale. Eliza Capai, Allan Deberton, André Novais Oliveira, Gabe Klinger, Priscilla Kellen, Karen Suzane, Janaína Marques e Grace Passô apresentam filmes como “A Fabulosa Máquina do Tempo”, “Feito Pipa”, “Isabel”, “Se Eu Fosse Vivo… Vivia” e “Nosso Segredo”.
Pouco antes da cerimônia principal, “Feito Pipa”, com Yuri Gomes e Lázaro Ramos, levou dois troféus —o grande prêmio do júri internacional e o Urso de Cristal da mostra Generation Kplus, este dado por um júri formado por adolescentes, entre 12 e 14 anos. Já “Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha”, exibido na seção Forum, foi premiado pelo júri popular do jornal Tagesspiegel.
O cinema brasileiro também esteve representado pelo diretor cearense Karim Aïnouz, que apresentou seu segundo filme internacional, “Rosebush Pruning”, na competição oficial, mas não levou prêmios.
Melhor atuação coadjuvante
Anna Calder-Marshall and Tom Courtenay, por “Queen at Sea”
Melhor contribuição artística
Anna Fitch e Banker White por “Yo (Love is a Rebellious Bird)”
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