Celulares em Juiz de Fora avisaram do temporal: por que não foi suficiente?

Celulares em Juiz de Fora avisaram do temporal: por que não foi suficiente?

📅 28/02/2026 06:54
📰 Fonte: Geral – rss.uol.com.br

Celulares em Juiz de Fora avisaram do temporal: por que não foi suficiente?

Juiz de Fora (MG) tem um plano para lidar com os efeitos de temporais considerado estruturado. E a principal estratégia de comunicação com a população para avisar de chuvas é digital, pelo celular —como ocorre em São Paulo. Os avisos sonoros, no entanto, não foram suficientes para evitar uma tragédia: a cidade mineira contabiliza dezenas de mortos e pelo menos dois desaparecidos desde o início da semana.

Modelo de contingência em Juiz de Fora é baseado principalmente em alertas digitais. O Plano de Contingência 2025-2026 prevê a comunicação de emergência apenas por meios digitais: SMS, WhatsApp, plataforma IDAP (quando a tela com o aviso trava e o celular apita) e redes sociais, além do uso de sistemas tecnológicos de monitoramento. A estrutura inclui sala de situação, câmeras e acompanhamento de níveis de rios.

O sistema de aviso, de fato, funcionou na segunda-feira, dia mais crítico de chuvas e deslizamentos. Moradores de Juiz de Fora ouvidos pelo UOL afirmam que receberam diversos alertas ao longo do dia e durante a noite, avisando sobre o volume de chuvas e a possibilidade de deslizamentos.

Especialistas ouvidos pela reportagem, no entanto, afirmam que o problema não é apenas tecnológico. Para eles, a discussão vai além de ter ou não um sistema de envio de mensagens. Envolve preparo da população, ocupação do território e decisões políticas acumuladas por décadas.

Questionada, a Prefeitura de Juiz de Fora não se pronunciou. O UOL entrou em contato com a administração da cidade mineira sobre o tema em mais de uma ocasião, mas não obteve retorno. Caso haja manifestação, o texto será atualizado.

Ao UOL News, a prefeita de Juiz de Fora, Margarida Salomão (PT), afirmou que, apesar da estrutura de defesa civil, a chuva teve impacto inédito. “Nós temos um trabalho extremamente bem construído da Defesa Civil, nós temos um plano de contingência, nós trabalhamos articulados com a Polícia Militar, especialmente com o Corpo de Bombeiros, […] então nós somos muito bem estruturados nesse aspecto”, afirmou.

Juiz de Fora é uma cidade caracterizada como o terceiro município com maior índice de risco das moradias. Eu sou prefeita há cinco anos e dois meses e, graças a Deus, até então eu não tinha tido que prantear [chorar] nenhuma morte. Nós conseguimos sempre chegar a tempo de oferecer soluções preventivas razoáveis.
Margarida Salomão

O plano municipal é considerado robusto do ponto de vista técnico. O engenheiro Jordan Henrique de Souza, professor da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora) e coordenador do núcleo sobre conscientização e educação em gestão de riscos da universidade, afirma que o documento utiliza metodologias reconhecidas e é mais estruturado do que a média nacional. “Eu não colocaria problema no plano. Pelo contrário, ele é muito bem construído.”

Eventos extremos, porém, mudaram o patamar do risco. Segundo Jordan, o volume de chuva registrado —cerca de 600 milímetros em menos de uma semana— foge ao padrão histórico. “Não existe cidade projetada para suportar isso”, afirma ele, que já atuou como assessor técnico da Defesa Civil de Juiz de Fora. Sistemas de drenagem e obras de contenção não são dimensionados para acumulados tão elevados em poucos dias.

Alertas digitais são apenas uma parte do sistema de proteção. Para o sociólogo Victor Marchezini, pesquisador do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) e coordenador do Projeto Cope (Capacidades Organizacionais de Preparação para Eventos Extremos)/Fapesp, o envio de mensagens não pode ser tratado como estratégia única.

Um sistema de alerta não é a única forma de proteção. Ele precisa direcionar as pessoas para um lugar seguro. E nem sempre esse lugar existe ou é conhecido.
Victor Marchezini

Mesmo municípios estruturados enfrentam limites. Marchezini cita que cidades com tradição em gestão de risco, como Petrópolis e Angra dos Reis, também sofreram tragédias recentes. Em muitos casos, os chamados “lugares seguros” deixaram de ser seguros diante de chuvas fora do padrão.

A população nem sempre sabe como reagir quando o celular apita. Jordan avalia que o Brasil avançou na tecnologia de envio de alertas, inclusive com sistemas que emitem mensagens sonoras automáticas. Mas isso não garante resposta adequada. “Avisar com meia hora ou uma hora de antecedência é importante. Mas o que a pessoa faz com essa informação?”, questiona.

Falta integração entre poder público e comunidade. Para o engenheiro, a principal lacuna hoje é o envolvimento social. Ele defende o fortalecimento dos Nupdecs (Núcleos Comunitários de Proteção e Defesa Civil), com líderes locais preparados para orientar moradores e abrir abrigos previamente definidos. “Não adianta só pensar em tecnologia. O desastre acontece com pessoas.”

A confiança nas fontes também influencia decisões. Marchezini lembra que moradores muitas vezes confirmam a gravidade da situação com vizinhos ou influenciadores locais e digitais antes de agir. Além disso, decisões são complexas: há filhos em casa, parentes em outros bairros, animais de estimação. “Não é uma decisão individual simples. Existem várias variáveis ao mesmo tempo”, afirma.

A magnitude dos eventos reduz o tempo de reação. Chuvas intensas em curto intervalo podem transformar ruas em enxurradas em minutos. Em áreas sujeitas a deslizamento, sair de casa pode ser tão arriscado quanto permanecer. “Há um distanciamento entre quem pensa o sistema de alerta e a realidade de quem precisa dele”, diz o pesquisador do Cemaden.

A ocupação histórica de áreas de risco pesa no resultado. Jordan lembra que grande parte das regiões afetadas em Juiz de Fora tem histórico de vulnerabilidade. Áreas próximas a cursos d’água e encostas íngremes foram ocupadas ao longo de décadas, muitas vezes sem respeito a restrições ambientais. “Estamos pagando o preço de decisões de 30 ou 40 anos atrás”, afirma.

Desastres são socioambientais, não apenas climáticos. Para Marchezini, tratar o problema apenas como consequência da chuva é simplificar demais. A permanência de milhares de pessoas em áreas de risco envolve desigualdade, falta de alternativa habitacional e conflitos fundiários. “Enfrentar isso significa também confrontar interesses.”

A prevenção exige mobilização permanente, não apenas na crise. O pesquisador observa que, quando a tragédia ocorre, todo o município se mobiliza. Prefeito, secretarias, estado e União entram em ação. Mas essa mesma mobilização raramente acontece antes do desastre, na formulação de políticas habitacionais e de planejamento urbano.

Educação aparece como estratégia de longo prazo. Jordan defende a inclusão da redução de riscos no currículo escolar. Para ele, formar crianças com percepção de perigo e noção de como agir é mais eficiente do que depender apenas da reação adulta no momento crítico. “A forma mais eficiente de criar resiliência é pela escola”, afirma.

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📌 Fonte original: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2026/…

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