Como um coroinha com síndrome de Down inspirou avanços inclusivos em igrejas do interior de SP

  • Miguel Lopes, 11, fez catequese adaptada e agora participa ativamente das missas em Piracicaba
  • Vídeos do menino nas missas têm milhares de visualizações nas redes sociais; padre diz que garoto tem postura de respeito e devoção sem perder toque de criança

São Paulo

Para que Miguel Lopes, 11, garoto com síndrome de Down, fizesse catequese na paróquia em que frequenta desde a barriga da mãe, em Piracicaba (SP), o pároco local agiu rápido. Sem milagres, ele buscou ajustes práticos para o material de formação e incentivou a capacitação das catequistas, que também tiveram noções de habilidades com outros públicos com deficiências, como autistas.

Depois da formação, o menino quis mais. Pediu para ser coroinha, queria participar ativamente das cerimônias religiosas. Conseguiu e desempenha a função há um ano, levando fiéis e curiosos às missas de domingo. Foi a partir daí que o debate de incluir a todos nas igrejas da região se instalou.

Coroinha garoto veste túnica branca com detalhes vermelhos, está com as mãos postas em oração no interior de igreja. Ao fundo, altar com crucifixo, cadeiras vermelhas e parede de pedra.
O garoto Miguel Lopes, 11, coroinha em paróquia de Piracicaba; formações católicas tomam medidas para promover mais inclusão

Arquivo pessoal

“Não procuro o preconceito. Ele existe, mas eu não preciso ficar atrás dele. Procuro as brechas, busco as oportunidades para o Miguel. Não nego que houve resistência, no começo, para que ele se tornasse coroinha, mais pelo desconhecimento do que por qualquer outra coisa”, afirma a mãe do garoto, Tássia de Carvalho Lopes.

A partir da jornada de Miguel, paróquias de diversas cidades no entorno de Piracicaba foram orientadas por autoridades religiosas a promoverem catequeses inclusivas e serem receptivas com crianças com diversidades físicas, intelectuais e sensoriais com interesses religiosos.

Os vídeos do garoto em ação nas missas têm milhares de visualizações nas redes sociais. “Acho que a comoção das pessoas vem do fato de verem uma criança com síndrome de Down fazendo aquilo que elas pensavam que ela não seria capaz. O Miguel tem uma participação ativa e de devoção. Ele se ajoelha, ele comunga, ele reza”, conta Tássia.

O padre Edvaldo Nascimento, líder da paróquia Santa Rosa de Lima, onde Miguel atua, afirma que a Igreja “sempre foi um espaço aberto e acolhedor para as pessoas com deficiência”, mas reconhece que está em curso uma mudança na compreensão e no acolhimento a esse grupo.

“É muito possível que, na liturgia, bem como nos trabalhos pastorais, haja espaço para um protagonismo capaz, inclusive, de gerar nos fiéis todos, maior compreensão daquela exigência fundamental de Jesus no Evangelho: amai-vos uns aos outros”, diz.

A respeito de criar perspectivas mais inclusivas dentro da igreja, o padre afirma ser totalmente possível, com envolvimento da comunidade.

“Digo aos pais das crianças e dos adolescentes [com deficiência] que podemos não saber como agir em algum momento, mas um coração aberto, boa vontade serão capazes dos melhores resultados. A comunidade é levada a essa busca constante de compreensão. Assim, vivemos momentos sublimes e emocionantes.”

Embora tenha planos de avançar em suas funções na paróquia —ele quer ser acólito, uma espécie de auxiliar direto do padre—, Miguel leva sua religiosidade sem exageros e sem pressões, segundo a família. Ele, porém, costuma cativar os fiés em suas intervenções.

“Todo domingo vamos à missa, a não ser que aconteça outro evento que não podemos faltar. Mas o Miguel tem sua rotina de escola, de terapias. É uma criança comum. Ele, às vezes, recolhe o cesto de ofertas e fala ‘amém’, em agradecimento. Já escutei de algumas pessoas que entenderam no acolhimento dele uma resposta para seus pedidos. É espontâneo e muito bonito”, afirma Tássia.

Além das atividades paroquiais, o garoto tem uma carreira como modelo publicitário. Já participou de cinco desfiles, de campanhas de marcas e de alguns ensaios.

“O Miguel é muito fotogênico, gosta de fazer fotos, de desfilar. Mas ainda existe uma dificuldade gigante das marcas em quererem colocá-lo em evidência. Estamos tentando, não vamos desistir”, afirma a mãe.

De acordo com o padre Edvaldo, o menino tem desempenhado suas funções de forma exemplar. Ele acompanha o percurso de Miguel desde quando ele, após o nascimento, passou por diversas complicações ligadas à síndrome.

“Acompanhei de perto o verdadeiro milagre da fé e da medicina na sua existência [de Miguel]. Tudo foi passado a ele com carinho, que sente esse amor e corresponde com muita desenvoltura no serviço da liturgia. Tem uma postura de respeito e devoção, sem perder o toque irreverente da criança. Ele tem nos mostrado a melhor verdade sobre Deus: o amor.”

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