Descrição de chapéu

Venezuela


Enquanto pede libertação de Maduro, Delcy se livra de figuras próximas ao ditador

  • Líder interina extingue sete programas sociais e troca generais em 12 comandâncias regionais
  • Especialistas veem tentativa de apagar legado de Maduro e virar página do chavismo

São Paulo

Nos quase dois meses desde que está à frente do regime da Venezuela, Delcy Rodríguez vem removendo figuras de confiança de Nicolás Maduro. Enquanto publicamente pede pela libertação do ditador, que está preso com sua esposa, Cília Flores, nos Estados Unidos, nos bastidores vem promovendo mudanças nas Forças Armadas, no alto escalão do regime e extinguindo programas sociais do chavismo.

A mais recente mudança foi a saída do procurador-geral da Venezuela, Tarek William Saab, que chefiou o Ministério Público do país por nove anos e era conhecido por pedir a prisão de opositores políticos da ditadura.

A renúncia de Saab foi anunciada pelo presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, irmão de Delcy. Saab foi um dos fundadores do Movimento Quinta República (MVR), legenda pela qual o ex-presidente Hugo Chávez se elegeu em 1998 e também era muito próximo de Maduro.

Mulher de vestido vermelho e óculos caminha entre militares fardados em ambiente interno com luz natural. Soldados usam uniformes com insígnias e chapéus, alguns a cumprimentam com reverência.
Delcy Rodríguez cumprimenta comandantes militares durante uma cerimônia em Caracas

Palácio Miraflores – 28.jan.26/via Reuters

“A gente está vendo uma transformação importante do chavismo. Delcy tem afastado pessoas importantes do núcleo duro chavista para colocar pessoas próximas a ela”, afirma Marsílea Gombata, professora de relações internacionais da Faap (Fundação Armando Alvares Penteado).

Saab assumiu o cargo de defensor do povo, cuja função é fiscalizar o governo para garantir o cumprimento de direitos humanos, uma espécie de ombudsman da sociedade frente ao poder público.

Outra mudança relevante foi a saída de Alex Saab, empresário colombiano acusado de servir como “laranja” de Maduro, do Centro Internacional de Investimento Produtivo (CIIP), principal agência de investimentos do país. Ele foi preso em Cabo Verde em 2020 e extraditado para os EUA em outubro de 2021. Apesar de ter o mesmo sobrenome, ele não é parente do ex-procurador-geral.

Alex retornou para a Venezuela em uma troca de prisioneiros e ingressou no regime em outubro de 2024. Ele foi afastado da liderança da agência poucos dias após ser destituído do cargo de ministro da Indústria. Em seu lugar na CIIP, Delcy indicou Calixto Ortega, um banqueiro formado nos Estados Unidos.

A escolha de uma pessoa com perfil menos político pode ser interpretada como um aceno à pressão de Washington —mas não só. Antes da queda de Maduro, Alex e Delcy já tinham divergências sobre questões econômicas.

E ele não foi o único da família enxotado. Sua esposa, Camila Fabri de Saab, presidente do plano governamental “Retorno à Pátria”, lançado em 2018 por Maduro e que incentiva o retorno voluntário de migrantes, também foi exonerada.

Outro nome descartado por Delcy foi Magaly Gutiérrez Viña, ex-nora de Cília Flores, retirada de seu posto como ministra da Saúde e presidente do Instituto de Seguridade Social. “É como se a Delcy quisesse colocar essas figuras [leais a Maduro] na geladeira”, segue a professora.

A líder interina, que nunca foi uma figura relevante dentro das Forças Armadas, também reestruturou os comandos militares e trocou generais de ao menos 12 das 28 comandâncias regionais em todo o país.

“Os militares são a grande pedra no sapato. Eles ganharam muito poder político nos últimos anos no regime Maduro, já que Maduro também não era militar e fazia sentido contar com essa ala do chavismo para continuar no poder”, explica Gombata.

“Os militares também se apropriaram da condução da infraestrutura de parte da economia na Venezuela. Então é estratégico que você pense nesses militares de forma a trabalhar para você.”

Logo após a destituição de Maduro, Delcy designou um ex-chefe do serviço de inteligência, o Sebin, como novo comandante de sua guarda presidencial. A decisão de nomear o major-general Gustavo González foi interpretada como uma manobra para neutralizar a influência do ministro do Interior, Diosdado Cabello.

O linha dura hoje representa a maior ameaça contra Delcy dentro do regime, afirma Sebastiana Barráez, jornalista especializada nas Forças Armadas Nacionais Bolivarianas. A rivalidade entre o ministro e os irmãos Rodríguez ficou mais explícita desde a captura e prisão de Maduro.

“Cabello começou a fazer aparições públicas rodeado pelos tradicionais homens armados, desde policiais até membros dos coletivos [milícias pró-regime], passando uma mensagem muito clara”, afirma Barráez.

A filha de Cabello, Daniela, foi nomeada para chefiar o Ministério do Turismo, cargo que já havia sido ocupado pela sua própria mãe. “Estou convencida de que Delcy a nomeou como uma maneira de mantê-la por perto. Há um ditado que diz que ao amigo é preciso mantê-lo perto, mas ao inimigo muito mais”, completa.

Além das mudanças de figuras-chaves e leais a Maduro, a líder interina extinguiu sete programas sociais e órgãos do chavismo. Quatro foram criados sob o governo de Maduro, entre eles o Centro Estratégico de Segurança e Proteção da Pátria.

Fundado em 2013, o órgão centralizava informações estratégicas sobre defesa e inteligência. Delcy também encerrou três programas sociais conhecidos como “missões”, também criados pelo ditador, além de outros três programas implementados por Chávez.

“Acho que, de modo geral, simbolicamente, é uma desconstrução de uma das principais marcas do chavismo: programas sociais”, afirma Gombata. A professora opina que há um movimento de afastamento e apagamento da figura de Maduro por parte do atual regime.

“Há um esforço para virar a página e deixar o que foram os anos Maduro para trás. Até porque a figura e o legado de Maduro na história da Venezuela estão muito atrelados a questões negativas —muito mais do que positivas”, avalia. “Tanto que ele sempre se apoiou no que havia sido o governo Chávez. E também no que foi [Simón] Bolívar, como faz parte de uma estratégia de tentar construir uma identidade nacional.”

Em paralelo, o regime de Delcy aprovou uma lei de anistia e deu início às reformas da prisão de Helicoide, apontada por observadores como um centro de tortura, para transformá-la em um centro social e esportivo para a polícia.

“Agora, será que tudo isso não está acontecendo porque Delcy estaria obedecendo o que as autoridades americanas estão pedindo nesse momento? Ou estamos de fatovendo um relaxamento do que foi esse recrudescimento dos anos Maduro?”, questiona Gombata. “A gente ainda precisa esperar para ver.”

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