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Testosterona vira símbolo que separa ‘machos alfa’ de homens fracos na internet

  • Exames mostrando hormônio acima do normal conferem prestígio entre o público masculino nas redes sociais
  • Valores muito elevados, a longo prazo, causam danos irreversíveis; saiba como melhorar produção de maneira natural

São Paulo

A testosterona é o hormônio do momento nas redes sociais. Vídeos sobre como conseguir níveis mais altos da substância e seus supostos benefícios chamam a atenção e impulsionam produtores de conteúdo, mas esse material desconsidera aspectos importantes de saúde.

Publicações de exames de testosterona livre, que mostram a disponibilidade do hormônio no sangue, são publicados com frequência. Eles expõem níveis muito além do que o corpo consegue produzir, que é de 350 a 1.000 ng/dL (nanogramas por decilitro). Há resultados de 2.000 a 12.000 ng/dL, o que pode ser considerado uma anomalia.

Ilustração em estilo gráfico mostra duas figuras masculinas lado a lado, ambas vistas de perfil e com os braços flexionados para cima, exibindo os bíceps em pose de força. A figura da esquerda aparece em tom claro sobre fundo verde-azulado, enquanto a da direita surge em tom escuro sobre fundo mais claro, criando um contraste visual marcante. As duas têm bigode e cabelos curtos estilizados, com traços simplificados e formas chapadas.

Catarina Pignato

Para efeito de comparação, se um grama fosse do tamanho de um carro popular, um nanograma seria menor que um parafuso desse veículo. Um decilitro seria o equivalente a meio copo de requeijão de sangue —100 ml. Um adulto tem de quatro a seis litros de sangue.

No imaginário de quem faz essas publicações, a testosterona cumpre uma função além da biológica. Ela é um símbolo de masculinidade forte, potência sexual e destaque individual. É como se o homem com maior disponibilidade do hormônio fosse uma espécie de “macho alfa”, o líder que domina, e, portanto, é melhor que os demais.

Resultado de exame de testosterona total com método quimioluminescência em soro. Valor do resultado é 2.374 ng/dL, destacado em círculo vermelho. Valores de referência para adultos, mulheres e pediátricos listados abaixo.
Exame de testosterona total com mais de 2 mil ng/dL, o dobro do valor considerado natural

Reprodução /Instragram

Mas os riscos desses níveis muito elevados são desconsiderados, explica Bruno França de Resende, membro da Sociedade Brasileira de Urologia e urologista do Hospital Vera Cruz.

Ele afirma que os benefícios da testosterona alta para o homem são inúmeros. Geram, de fato, sensação de bem-estar, potência sexual, melhora do sono e ganho rápido de massa muscular na mesma medida em que prejudicam a saúde.

“A testosterona é um dos principais hormônios masculinos, mas em níveis supra fisiológicos, vai agir na medula óssea e deixar o sangue mais grosso, por exemplo. Isso aumenta o risco de trombose das pernas, infarto e AVC (Acidente Vascular Cerebral)”, explica o médico.

Outro problema é cardíaco. Resende explica que o músculo do coração tem muitos receptores à substância. Portanto, “quanto mais [testosterona], maior ficará o coração, já que ela tem efeito anabólico”.

Um coração maior leva a riscos de insuficiência cardíaca e arritmia. “E, diferente dos músculos dos braços ou das pernas, o coração não volta a diminuir”, diz o médico.

Há ainda danos menores, como o surgimento de espinhas por todo o corpo e pelos em locais incomuns. Não só: o uso prolongado pode causar calvície e ginecomastia, crescimento anormal dos peitos nos homens —adquirindo formato feminino.

“Existem revisões que mostram redução do HDL, o colesterol bom, e aumento da pressão arterial com o uso crônico da testosterona”, diz o médico George Mantese, especialista em saúde hormonal.

Alcançar níveis tão elevados do hormônio só é possível com uma ajudinha externa, isto é, com esteróides anabolizantes. O mais popular chama-se durateston, uma mistura de propionato, fenilpropionato, isocaproato e decanoato de testosterona.

O fármaco é prescrito para tratar hipogonadismo (baixa testosterona). Deve-se ter uma receita para adquiri-lo, mas essas substâncias circulam de forma clandestina, com publicidade na internet.

EFEITO SUPER-HOMEM

Os adeptos da testosterona alta defendem que isso lhes confere super poderes.

São eles, por exemplo, transar todos os dias, trabalhar mais e cansar menos, ganhar autoestima e afastar períodos de tristeza.

Por associação, um homem com mais testosterona é mais “valente”, bom de cama, proativo, para citar algumas das percepções, que ganham força com os ideais masculinistas. Com níveis superiores a 2.000 ng/dL, os músculos crescem mesmo sem estímulos.

Segundo Resende, estudos indicam redução global de testosterona nos homens nas últimas décadas. Esse fenômeno é associado a estresse, sedentarismo, sono irregular, consumo de ultraprocessados e à presença de microplásticos no organismo. “Os níveis de um homem de 50 anos, hoje, se assemelham a um de 70 do passado”, diz o médico.

Essa redução explica em partes o culto ao hormônio, em um contexto de busca geral por performance.

Caso seu exame mostre índices abaixo de 500 ng/dL, há estratégias para aumentá-los, diz Mantese.

  • Exercícios físicos: musculação e corrida ajudam a manter os níveis e, eventualmente, aumentá-los.
  • Emagrecimento: a redução de gordura corporal ajuda em elevações significativas do hormônio.
  • Sono: dormir bem garante a manutenção dos níveis.
  • Estresse: excesso de cortisol é associado à menor produção de testosterona. Portanto, reduzir os níveis de estresse ajuda a manter os índices.
  • Alimentação: produtos como azeite, peixes e fibras podem ajudar. Comer pouca gordura, por outro lado, pode reduzir os índices.
  • Vitamina D: estudos observacionais sugerem níveis menores em pessoas com deficiência do nutriente. São, contudo, associações, ou seja, não cravam relação de causa e consequência.

Embora alguns suplementos prometam elevação rápida da produção hormonal, isso raramente acontece em grandes percentuais. Mantese diz que suplementar pode ser uma opção: se não elevar, também não oferece riscos. Porém, a suplementação não exclui a necessidade das demais práticas.

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