Quando a vida real corre paralela à vida comum


Vidas Atípicas
Johanna Nublat, jornalista e mãe atípica, procura respostas para dúvidas profundas e inesgotáveis sobre o autismo

Por baixo da camada que todos vivemos, em coletivo, há muitas outras. Às vezes, escondidas. Às vezes, abertas para quem quiser ver —mas a maioria ou não quer ver ou não sabe ver. Às vezes, sobretudo na era das redes sociais, explicitamente abertas para compartilhar, ensinar e até escancarar para quem fecha os olhos.
Essas camadas são diversas: a especificidade do que é diferente é infinita. Pode ser boa, alegre; pode ser apenas diferente; pode ser sofrida e solitária. Lembrando Liev Tolstói, “todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”.
Aqui, para essa reflexão, poderíamos reformular para “cada família que vive uma experiência muito singular é solitária à sua maneira”. É moldada a ver o mundo de outro prisma, todos os dias, mesmo quando seu desejo é o de apenas pertencer ao mundo ordinário.
Eu não saberia ver o mundo de outra forma, já que tenho uma irmã mais nova com síndrome de Down e dois filhos neurodivergentes. Ou seja, fui moldada desde os três anos de idade a ver por essa janela muito específica da vida em famílias atípicas. Fui criança, adolescente, adulta e mãe nessa vivência.
E, ainda assim, me vejo vivendo partes da vida como se não enxergasse por essa janela tão particular —mesmo eu consigo escolher ver por cima da camada das diferenças. Me vejo trabalhando em assuntos completamente desconectados, e engajando, por anos, em relações que desconhecem minha vivência pessoal.
Mas, de repente, várias vezes por dia, sou sacudida pela (minha ou nossa?) realidade. São diversas mensagens por dia perguntando sobre as terapias dos meninos, são materiais que precisam ser comprados para adaptações, são conversas com profissionais de saúde, são relatos sobre consultas da minha irmã.
Ou são episódios totalmente desconectados, que mexem com a pessoa que eu sou desde os três anos de idade. Como um encontro que tive, essa semana, com uma jovem influenciadora com síndrome de Down. Não conversamos, mas fiquei admirando sua desenvoltura explicando seu trabalho em parceria com a irmã. Fiquei pensando na minha irmã, e refletindo sobre o caminho de todas nós.
Seguimos todos, em coletivo, uma vida que soa igual. Acordar, arrumar crianças para a escola, fazer reuniões, produzir, comer, cuidar da casa, entreter nos finais de semana, talvez viajar nas férias. Cada uma dessas atividades certamente é gatilho para quem não alcança uma experiência comum.
Para quem não dorme porque o filho tem transtorno do sono; para quem leva o filho para uma escola despreparada; para quem não consegue focar o trabalho por tantas demandas extras (brigar com o sistema de saúde, com a escola, ter ansiedade sobre o presente e o futuro); para quem se esgota no final de semana sem apoio de uma aldeia, mas com demandas extraordinárias; para quem viajar é sinônimo de estresse e sofrimento antecipado pela dificuldade intrínseca e falta de preparo geral.
Talvez seja um olhar exageradamente pessimista, e não é o meu de todos os dias. Também porque é comum naturalizar as dificuldades e seguir como se ordinárias fossem —como dizem meus compatriotas britânicos “keep calm and carry on” (“fique calmo e siga”).
Mas é preciso dizer que esse não deixa de ser um olhar realista, para o que corre abaixo da vista coletiva. Ainda que não sejam sofridas, que sejam apenas diferentes, experiências singulares podem gerar vidas solitárias. E todos queremos pertencer.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
sua assinatura pode valer ainda mais
Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha?
Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas (conheça aqui).
Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia.
A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!
sua assinatura vale muito
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
📰 Fonte: UOL Notícias
🔗 Link original: https://www1.folha.uol.com.br/blogs/vidas-atipicas/2026/03/q…
Publicado automaticamente pelo Sistema Itaquera News em 05/03/2026 às 08:15


Comentários
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.