Cartas para ‘Enquanto Você Está Aqui’


Morte Sem Tabu
Reflexões sobre os múltiplos sentidos da morte e fim da vida

Cartas para ‘Enquanto Você Está Aqui’
- Cynthia Araújo e Jéssica Moreira escrevem sobre o novo livro de Camila Appel
- Obra é dedicada à dramaturga Leilah Assumpção, mãe da autora
Mais de 150 pessoas estiveram no lançamento do livro “Enquanto Você Está Aqui” (Editora Fósforo), de Camila Appel —escritora, documentarista e colunista fundadora do Morte sem Tabu— na última terça-feira (3) na Livraria da Vila, na zona oeste de São Paulo.
Acompanhada do apresentador Pedro Bial, Camila mostrou que há muita gente interessada em se aproximar de um tema que, mesmo presente na vida de todos, ainda é evitado pela maioria. O livro é resultado de sua longa pesquisa sobre morte —iniciada em 2014 com textos no Morte sem Tabu—, mas também o desejo de se comunicar com a própria mãe sobre os processos de envelhecimento e o fim da vida.
Tivemos a honra de ler o mais novo livro de Camila antes da publicação. Como se trata de um livro-carta dedicado à mãe, a dramaturga Leilah Assumpção, achamos que seria igualmente sensível publicizar as cartas que fizemos a ela sobre o que sentimos com nossas primeiras leituras. De autoras do Morte sem Tabu para sua fundadora, Camila Appel, que abriu caminhos para que falássemos sobre morte:
Querida Camila,
Nunca vou esquecer essa leitura, que me transformou já nas primeiras frases. Lembro de falar que queria muito conhecer sua mãe. Que me parecia uma pessoa fascinante. Agora não parece mais: ela é.
Eu me lembro da sua mensagem naquele março de 2019, quando seu sogro estava na UTI. Falamos em ventilação mecânica, diálise, intubação. A morte aproxima mais as pessoas do que a vida. Não. É a vida, que inclui a morte, que aproxima mais as pessoas.
Ler o seu livro é uma das experiências mais pessoais e intransferíveis que já tive. A gente não fala sobre as banalidades do cotidiano, eu nunca sei se você está em São Paulo ou viajando, ainda não conheço seus filhos. Mas sei da morte da gata Tantan com detalhes. Acompanhamos suas últimas horas. Até o momento em que, conformada, mas destruída, você disse: “a morte é feia”.
Suas palavras são como um grande abraço chamando para serem nossas também. Espero que seu livro ganhe o mundo todo, os prêmios, os palcos. Desejo, principalmente, que o livro ganhe o coração de Leilah, o coração da sua mãe. As palavras são um elo eterno entre vocês.
Sou uma nova pessoa enquanto te leio. E é nesse impacto sobre o outro que as suas palavras são tão fortes. Nesse impacto que, tenho certeza, elas terão sobre todas e todos os leitores. Nossos livros, em que achávamos ter tanto a dizer, acabaram sendo histórias sobre o adoecimento e o medo da morte das nossas mães. Não por acaso, também sobre o processo de nascer de nossos filhos, o nosso processo de nascer como mães. Talvez não haja outra forma de tocar a finitude tão concretamente.
Vejo o que você escreveu sendo estudado nos diversos cursos de áreas que tocam, de algum modo, assuntos da morte. “Ela pesquisou, sentiu e viveu tudo”, direi para te recomendar em aulas e palestras.
Ainda não sei dar nome ao sentimento de ver um pouco da minha história contada no seu livro também. Você diz que eu e Jéssica seremos as primeiras pessoas a saber quando sua mãe se for. Acho que é a frase mais importante que alguém um dia já me disse.
É sempre incrível ler o que você pensa, como você escreve, forma e conteúdo. Nos dias em que estiver em dúvida sobre se tenho alguma relevância neste mundo imenso e cheio de gente incrível, lembrarei que você confiou a mim, antes da publicação, o seu texto. Obrigada, Camila. Obrigada e parabéns.
Com amor, Cynthia
Querida amiga Camila,
Li seu livro de uma só vez em uma noite. Bateu aquele sentimento dúbio de quando não conseguimos parar de ler uma obra, mas tememos sentir saudades em seguida. Sua escrita pontuada: o ponto de quem escreve a emoção com emoção. De quem roteiriza vida e sonho, dando ritmo e pausa, com movimentos precisos que prendem o leitor.
Os curtos, mas essenciais, trechos do livro de sua mãe dedicado a você quando ainda era adolescente tornam esse livro uma troca de afeto bonita e corajosa. Um diálogo geracional, mas também íntimo. Embora tão individual, é universal. Pode tocar qualquer mãe e qualquer filha.
Consegui visualizar vocês duas em uma conversa honesta e sem rodeios. Há referências, contexto e informação para quem pesquisa e gosta de se aprofundar. Mas sem perder a poética, sem perder o ponto do roteiro da vida —a sua e a de sua mãe.
Aquilo de que precisamos de uma aldeia inteira para morrer —ou viver um luto— aparece organicamente nessas páginas. Cada pessoa que lhe ajudou a erguer suas reflexões sobre morte têm dentro de você suas funções para quando sua mãe partir —são suas histórias-amuleto. Inclusive eu e Cynthia, que dividimos a casa Morte Sem Tabu e receberemos esta notícia como quem recebe o próprio corpo em forma de palavra e memória.
Em determinado momento você diz que não está preparada para ser ela. Quando meu pai morreu, eu também não estava. Seis anos após sua morte, você me convidou para ocupar a sua casa com você e, hoje, meu pai está imortalizado não só no Morte Sem Tabu como também em seu livro.
Desde quando te conheci —em meio aos lutos da pandemia— você vem me auxiliando, como uma caronte, a guardar minhas memórias e a honrar meus ancestrais. Aprecio demais seu gesto, sua habilidade de ser genuinamente gentil. E espero realmente conseguir retribuir.
Com carinho, Jéssica
AGENDA
No próximo domingo (8), às 12h30, Camila Appel e Jéssica Moreira lançam o livro “Enquanto Você Está Aqui”, no Festival Fronteiras, no parque da Água Branca, zona oeste de São Paulo.
No próximo dia 19, Camila Appel e Cynthia Araújo conversam sobre seus livros no lançamento da obra no Rio de Janeiro. Será na livraria Janela de Laranjeiras, às 19h. Esperamos vocês!
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📰 Fonte: UOL Notícias
🔗 Link original: https://www1.folha.uol.com.br/blogs/morte-sem-tabu/2026/03/c…
Publicado automaticamente pelo Sistema Itaquera News em 06/03/2026 às 18:14



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