A onda de violência que já matou mais de 60 no México após morte do traficante mais procurado do país

A onda de violência que já matou mais de 60 no México após morte do traficante mais procurado do país

📅 24/02/2026 00:47
📰 Fonte: Geral – feeds.bbci.co.uk

A onda de violência que já matou mais de 60 no México após morte do traficante mais procurado do país

    • Author, Vanessa Buschschlüter

    • Author, Ottilie Mitchell
  • Tempo de leitura: 9 min

Integrantes da organização criminosa Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG), uma das facções mais poderosas e temidas do México, desencadearam uma onda de violência em 20 Estados mexicanos após a morte de seu líder, Nemesio Oseguera Cervantes, conhecido como “El Mencho”.

Ao menos 68 pessoas morreram durante a operação e nos desdobramentos dela, sendo 25 membros da Guarda Nacional, segundo informou o governo.

Em retaliação à morte, membros do cartel incendiaram estabelecimentos comerciais, bancos e farmácias, e também bloquearam vias com veículos em chamas. Em alguns municípios, espalharam pregos e objetos pontiagudos nas estradas; em outros, tomaram ônibus e carros, que depois foram incendiados no meio das vias.

Nesta segunda-feira (23/2), o governo anunciou o envio de 2.500 militares para o oeste do México. Eles se somam aos aos 7.000 soldados e agentes do Exército e da Guarda Nacional que já haviam sido mobilizados em Jalisco no domingo.

“El Mencho”, considerado o homem mais procurado no México, morreu sob custódia no domingo (22/2), pouco depois de ser capturado por forças especiais mexicanas.

Ele ficou gravemente ferido em um confronto entre seus seguranças e comandos militares enviados para prendê-lo. A morte dele ocorreu enquanto ele era transportado de Tapalpa, no Estado de Jalisco, para a capital, Cidade do México.

O secretário de Defesa Nacional do México, Ricardo Trevilla Trejo, informou na segunda que “El Mencho” foi localizado após a identificação de uma de suas “parceiras românticas”.

“Em 20/2, uma pessoa de confiança de uma das parceiras românticas de El Mencho foi localizada e levada para uma propriedade na cidade de Tapalpa, Jalisco. Nesse local, a parceira se encontrou com El Mencho e, em 21/2, deixou a propriedade. Informações obtidas indicam que El Mencho permaneceu ali, cercado por seguranças.”

Segundo as autoridades mexicanas, oito pessoas morreram durante a operação.

Além disso, elas confirmaram que outras 30 pessoas ligadas a cartéis morreram durante confrontos em meio à onda de violência em Jalisco, além de 25 membros da Guarda Nacional, um agente penitenciário e um servidor da Procuradoria-Geral do Estado.

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À medida que a notícia da morte se espalhava, ataques foram registrados em diversas cidades onde o CJNG atua.

Imagens feitas por moradores mostraram colunas de fumaça sobre várias localidades, incluindo o balneário de Puerto Vallarta, destino popular entre turistas.

Em Guadalajara, capital de Jalisco e uma das sedes da Copa do Mundo de 2026 (11/6 a 19/7), passageiros no aeroporto foram vistos correndo e se agachando no chão, em pânico.

“Deite no chão, vovó, deite no chão!”, dizia, aos prantos, a mexicana Yasmin Maya, enquanto gravava pelo celular cenas de desespero no aeroporto.

O site Milenio informou que o tumulto começou quando um grupo entrou no terminal em busca de abrigo após ouvir disparos na rodovia próxima. Segundo um repórter do site, um carro incendiado foi visto na estrada, mas autoridades descartaram rumores de tiros dentro do aeroporto.

Cerca de 300 turistas ficaram retidos no aeroporto após o cancelamento de voos. Eles foram levados ao centro da cidade sob forte escolta policial.

Aulas foram suspensas em diversos Estados. E pelo menos quatro jogos de futebol foram suspensos no domingo por causa da onda de violência.

Em diversas cidades, autoridades orientaram moradores a permanecer em casa, deixando ruas desertas.

Em Puerto Vallarta, na região do litoral mexicano voltada para o oceano Pacífico, turistas foram orientados no domingo a permanecer onde estavam.

Marc-André, criador de conteúdo canadense que mora em Puerto Vallarta, disse que a cidade “parecia uma verdadeira zona de guerra”.

“Havia incêndios por toda parte, como se centenas de carros estivessem queimando ao mesmo tempo”, contou em um vídeo publicado em seu canal no YouTube. “É devastador ver o que está acontecendo.”

Sara Morales, que está de férias no local com os filhos, disse que foi orientada a deixar a praia de Las Glorias.

“Fiquei com muito medo porque não sabia o que estava acontecendo”, afirmou Morales ao jornal mexicano El Economista.

Jerry Jones, um americano dono de uma revista voltada à comunidade LGBT+ que vive há mais de quatro anos no destino turístico, disse à BBC que “nunca tinha vivenciado algo assim”.

Ele relatou que algumas pessoas ficaram presas em lojas e que dezenas de veículos que estavam no estacionamento de um estabelecimento “foram queimados e destruídos”.

Segundo Jones, os moradores de Puerto Vallarta estavam “totalmente desprevenidos” na manhã de domingo.

“O primeiro indício de que algo estava acontecendo foi quando um de nossos leitores nos enviou um vídeo de um ônibus pegando fogo”, contou.

O jornal El Universal informou que mais de 250 bloqueios de estradas foram registrados nos estados afetados.

Autoridades de segurança afirmaram que 90% já foram removidos, mas a tensão permanece elevada, especialmente em Jalisco, reduto do Cartel Jalisco Nueva Generación.

Segundo o governo mexicano, 25 pessoas foram presas: 11 por participação em atos violentos e 14 por suspeita de saques.

O governador de Jalisco, Pablo Lemus, decretou “código vermelho”, chegando a suspender o transporte público e cancelando eventos e aulas presenciais na segunda.

Durante a noite, Lemus fez uma postagem no X informando que as escolas reabrirão normalmente na quarta-feira (25/2) e que o transporte público voltará a funcionar a partir desta terça (24/2).

As cenas registradas no domingo lembraram a violência ocorrida no Estado de Sinaloa após a captura de outro líder do tráfico, Ovidio Guzmán López, em 2019.

Na ocasião, os confrontos com integrantes do Cartel de Sinaloa foram tão intensos que as autoridades mexicanas decidiram libertar Guzmán López, filho do traficante preso Joaquín Guzmán, conhecido como “El Chapo”, para evitar mais derramamentos de sangue.

Guzmán López foi preso novamente em 2023 e extraditado para os EUA, onde se declarou culpado por tráfico de drogas. Desde então, ataques retaliatórios após prisões do alto escalão se tornaram recorrentes.

A presidente do México, Claudia Sheinbaum, pediu à população que permaneça “calma e informada”. Ela acrescentou que “na maior parte do país, as atividades seguem normalmente”.

Sheinbaum também elogiou as forças de segurança mexicanas pela operação que resultou na captura de “El Mencho”. Ela enfrenta pressão do governo do presidente americano, Donald Trump, para intensificar o combate aos grupos transnacionais de tráfico de drogas.

A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que “El Mencho” era “um dos principais alvos dos governos do México e dos EUA, como um dos maiores traficantes de fentanil para o nosso território”.

O Ministério da Defesa do México informou que a operação para capturar “El Mencho” foi conduzida pelo Exército mexicano, com apoio da Guarda Nacional e da Força Aérea do país. Segundo a pasta, “informações complementares” fornecidas pelos EUA contribuíram para a prisão do chefe do cartel.

O Departamento de Estado dos EUA havia oferecido recompensa de US$ 15 milhões (cerca de R$ 78 milhões) por informações que levassem à prisão do líder do Cartel Jalisco Nueva Generación.

Mike Vigil, ex-chefe de operações internacionais da agência antidrogas dos EUA (DEA, na sigla em inglês), afirmou à CBS, parceira da BBC nos EUA, que a operação foi “uma das ações mais significativas já realizadas na história do combate ao tráfico de drogas”.

Após a prisão e extradição para os EUA de Joaquín “El Chapo” Guzmán, em 2017, o grande alvo das forças antidrogas do México era Oseguera Cervantes.

Também chamado Nemesio Oseguera Ramos ou Rubén Oseguera Cervantes, e com vários apelidos, como “El Mencho” ou “El Señor de los Gallos”, ele nasceu na região conhecida como Tierra Caliente, em Michoacán, provavelmente em Uruapan ou Aguililla.

Na década de 1980, migrou para os EUA. Na Califórnia, foi detido várias vezes por delitos menores, mas já no início da década de 1990 começou a se envolver com a venda de drogas, o que levou à sua deportação.

Ao retornar ao México, ingressou na polícia de um município de Jalisco, mas optou por se envolver no círculo de proteção do narcotraficante Armando Valencia Cornelio, “El Maradona”, chefe do cartel Los Valencia (ou Cartel del Milenio).

O grupo mantinha uma aliança com o Cartel de Sinaloa, mas se separou em 2010, após a morte de um de seus fundadores, Ignacio “Nacho” Coronel. Ao lado do cunhado Abigael González Valencia, “El Cuini”, herdou parte de sua estrutura.

A partir desse momento nasceu o Cartel Jalisco Nueva Generación — e a carreira criminosa de “El Mencho” se acelerou.

Em poucos anos, o Cartel Jalisco Nueva Generación passou de uma quadrilha local nos estados de Jalisco e Colima a uma organização com presença em mais da metade do território mexicano.

Seu principal negócio se concentrava no mercado ilegal de anfetaminas nos Estados Unidos e na Europa, mas também foram detectados vínculos entre o grupo e o mercado de drogas na Ásia.

Por trás do crescimento acelerado do Cartel Jalisco Nueva Generación há várias razões.

Uma delas foi a captura de muitos dos principais líderes de cartéis rivais, o que levou à fragmentação de alguns grupos ou quase à extinção de outros, como Los Templarios, no estado de Michoacán. O Cartel Jalisco Nueva Generación ocupou os espaços deixados pelos rivais no mercado.

Outro motivo foi o recrutamento de especialistas em finanças e químicos que desenvolvem novas fórmulas para fabricar drogas sintéticas.

A violência do cartel também tem sido um fator central. As autoridades apontaram, na última década, “El Mencho” como um personagem de alta periculosidade, com grande poder de fogo. Alguns especialistas afirmam que Oseguera Cervantes cresceu precisamente ao “triturar” seus grupos rivais.

Os interesses do Cartel Jalisco Nueva Generación e de seu líder não se limitaram ao narcotráfico. Ele aproveitou o crescimento econômico nos setores de pecuária, agricultura e construção em Jalisco para criar negócios nessas áreas e utilizá-los como vias de lavagem de dinheiro proveniente do tráfico.

O Cartel Jalisco Nueva Generación também se destacou por seu poder de corrupção sobre autoridades locais e aduaneiras. Isso facilitou a entrada de precursores ou substâncias iniciais para a fabricação de drogas sintéticas pelos portos de Manzanillo, em Colima, e Lázaro Cárdenas, em Michoacán, ambos na costa oeste do México.

Outra fonte de renda foi a extorsão de pequenos e médios negócios no oeste do México.

No entanto, desde 2022 circulam rumores sobre seu estado de saúde. Em pelo menos duas ocasiões, sua morte foi noticiada, algo que as autoridades não conseguiram confirmar. Especialistas apontam que, provavelmente, “El Mencho” já não estava diretamente à frente das operações do Cartel Jalisco Nueva Generación.

Um de seus filhos, Rubén Oseguera González — considerado o segundo na hierarquia do grupo — foi extraditado em 2020 do México para os EUA, em uma ação considerada um dos golpes mais duros contra a organização até então.

Sua esposa, Rosalinda González Valencia, também foi presa em 2021 e condenada dois anos depois por acusações relacionadas ao crime organizado. Ela deixou a prisão no fim de fevereiro passado, após obter liberdade antecipada.

📌 Fonte original: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cp81z72l457o?at_medi…

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