Peça ‘Rainha Lira’ busca potência poética na discussão sobre política recente no Brasil

Peça 'Rainha Lira' busca potência poética na discussão sobre política recente no Brasil
Peça 'Rainha Lira' busca potência poética na discussão sobre política recente no Brasil

Peça ‘Rainha Lira’ busca potência poética na discussão sobre política recente no Brasil

  • Publicada em 2022, montagem foi escrita por Roberto Schwarz, crítico literário e pensador marxista
  • Obra sai do papel pela primeira vez em edição especial do Sete Leituras, do Sesc, em 3 de março















São Paulo

A peça “Rainha Lira”, publicada em livro em 2022 pelo crítico literário Roberto Schwarz, enfim será interpretada em uma edição especial do projeto Sete Leituras, de Eugênia Thereza de Andrade, no dia 3 de março, no Sesc Pompeia.

O programa, zona limiar entre a leitura convencional e a montagem completa, comemora duas décadas neste ano. Eugênia decidiu incluir no cronograma principal esta edição especial. “Não poderia deixar de fazer essa leitura. A forma como Schwarz aborda a situação política brasileira nos ajuda a compreendê-la”, afirma ela.


Mulher de cabelos curtos e castanhos, usando óculos e camisa branca, gesticula com as mãos enquanto fala. Ela segura um caderno apoiado nas pernas, com fundo preto ao redor.

A atriz Denise Weinberg, que participa da peça ‘Rainha Lira’, em São Paulo

Alicia Peres/Divulgação

Ela convidou para a direção Kiko Marques, que também é dramaturgo. Juntos, capturaram para o elenco figuras como Denise Weinberg, que lê o papel da rainha. A versão que chega ao público é o resultado da troca entre Weinberg, Marques e Schwarz.

Quando surgiu a oportunidade de encenar sua obra, Schwarz tomou uma decisão radical. Não seria possível trabalhar com a íntegra do texto no formato do projeto Sete Leituras. Mas o autor temia adaptar o texto e comprometê-lo. Quis, então, fazer um corte drástico e apresentar apenas o desenlace da obra.

Em “Rainha Lira”, o escritor digeriu por meio da alegoria política a história recente do Brasil desde as manifestações de 2013 até a soltura de Lula em 2019, após 580 dias de prisão, passando pelo impeachment de Dilma Rousseff e o pleito que elegeu Jair Bolsonaro. Disso restaria, após o recorte, o pedaço final da trama, que compreende a ascensão da ultradireita populista e o subsequente retorno de Lula —aqui rei Lalu.

Marques, o diretor, discordou da decisão. Achou que muito se perderia com o sacrifício das primeiras partes e decidiu propor sua própria versão, enxugando o texto sem abrir mão da estrutura geral. O resultado acalmou —e satisfez— o crítico literário, que viu seu texto ganhar outra energia na nova versão.
“O trabalho que a gente fez foi justamente tirar do texto aquilo que, do ponto de vista da encenação, é excesso e funciona melhor no texto publicado”, diz Marques.

Na sua opinião, há potência na peça para além do diálogo com a situação política imediata. “Ela parte desse momento do Brasil, mas fala sobre as questões intrínsecas à sociedade. Você poderia pegar uma peça como ‘Hamlet’ e dizer que ela é datada, porque as pessoas lutam com espada. Não é essa questão, porque a tese que está se trabalhando ali é muito maior, pertence à humanidade. Acho que a peça do Roberto tem isso.”

A decisão de Marques permitiu preservar a abrangência da obra, reconhecida pelo autor como uma de suas forças. Há ali a tentativa de capturar o arco completo de um movimento histórico: “Uma passeata que pressiona o poder, o derruba e depois tem de optar pelo futuro, não opta e tudo se atola”, nas palavras de Schwarz.

É a leitura que ele faz do saldo dos levantes que levaram à derrubada de Dilma, aqui rainha Lira, e culminaram primeiro em uma guinada à direita e depois no retorno de Lula ao poder.

“Esse teatro e essa literatura com ambição abrangente sempre foram ligados à ideia de apresentar um ciclo completo que vai para algum lugar. Depois se impôs a ideia de que nós não vamos para lugar nenhum, e então a abrangência ficou desautorizada. Eu tentei fazer uma obra que, ao mesmo tempo, tem abrangência e não vai para lugar nenhum, e penso que isso tem a sua potência de revelação.”

Como reconhece seu autor, é uma peça de orientação geral brechtiana —como Bertolt Brecht, o dramaturgo e encenador alemão do século 20, busca-se ali encontrar uma potência poética dentro do diálogo político. “O espaço público é essencial, e a arte se encolheu para o espaço privado, subjetivo. Evitei isso”, afirma o escritor. “Procurei, dentro do possível, extrair uma espécie de música da discussão política, que tem uma beleza nela mesma. Tem jogo, tem astúcia, tem surpresas.”

Apesar disso, não há na obra de Schwarz nada parecido com as lições típicas das conclusões das peças de seu antecessor alemão. Trata-se, ele diz, de uma peça pós-Brecht, escrita em um momento de maiores incertezas, em que já não cabe aos artistas apontar a direção das coisas. “Não vejo isso como uma opção pessoal, no sentido estreito da palavra. Vejo como uma tentativa de captar a situação histórica real. Penso que Brecht, se escrevesse hoje, não daria aula final.”

Conforme o modelo do Sete Leituras, “Rainha Lira” será encenada uma única vez, após três ensaios. A leitura carrega a expectativa de Schwarz e de quem o acompanha de enfim desencadear outras montagens do texto, que custou a sair do papel por causa de seu formato desafiador.

Rainha Lira
Dir.: Kiko Marques. Com: Adriana Lessa, Carlos Careqa, Denise Weinberg, Genézio de Barros, Virgínia Buckowski. 3/3, às 20h. Sesc Pompéia – Rua Clélia, 93, Água Branca, região oeste. 12 anos












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📰 Fonte: UOL Notícias

🔗 Link original: https://guia.folha.uol.com.br/teatro/2026/01/peca-rainha-lir…

Publicado automaticamente pelo Sistema Itaquera News em 25/02/2026 às 23:40

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