‘Por que começou guerra com o Irã?’, pergunta NYT a Trump em editorial


‘Por que o senhor começou guerra com o Irã?’, pergunta NYT a Trump em editorial
- Operação militar desconsidera legislação nacional e internacional sobre intervenções
- Presidente promete acabar com confitos, mas já ordenou ataques em sete países
The New York Times
Por que o senhor começou esta guerra, presidente?
Na campanha presidencial de 2024, Donald Trump prometeu aos eleitores que acabaria com guerras, não que as iniciaria. No último ano, ele ordenou ataques militares em sete países. O apetite do presidente por intervenção militar cresce à medida que ele a concretiza.
Agora, ele ordenou um novo ataque contra a República Islâmica do Irã, em cooperação com Israel, e disse que seria muito maior do que o bombardeio direcionado às instalações nucleares realizado em junho.
Trump começou essa guerra sem explicar ao povo americano e ao mundo por que estava fazendo isso. Tampouco envolveu o Congresso, ao qual a Constituição dá o poder exclusivo de declarar guerra.
Em vez disso, publicou um vídeo na madrugada de sábado (28), pouco depois do início dos bombardeios, no qual disse que o Irã representava uma “ameaça iminente” e pediu a derrubada de seu governo. Sua justificativa é duvidosa, e apresentar seus argumentos por vídeo no meio da noite é inaceitável.
Entre seus argumentos para o ataque está a eliminação do programa nuclear iraniano, que é um objetivo válido. Mas Trump declarou que esse programa foi “obliterado” pelo ataque em junho, uma afirmação desmentida tanto pela inteligência americana quanto por este novo ataque.
A contradição ressalta o pouco respeito que ele tem por seu dever de dizer a verdade ao enviar as Forças Armadas americanas para o combate. Também mostra quão pouca fé os cidadãos americanos deveriam depositar nas garantias que ele dá sobre os objetivos e resultados da crescente lista de aventuras militares.
A abordagem de Trump em relação ao Irã é imprudente. Seus objetivos são mal definidos. Ele não conseguiu reunir o apoio internacional e doméstico que seria necessário para maximizar as chances de um bom resultado. Ele desconsiderou tanto a legislação nacional quanto a internacional sobre guerra.
O regime iraniano não merece simpatia. Ele tem causado miséria desde a revolução há 47 anos: ao seu próprio povo, aos seus vizinhos e ao redor do mundo. Massacrou milhares de manifestantes este ano. Prende e executa dissidentes políticos. Oprime mulheres, pessoas LGBTQIA+ e minorias religiosas. Seus líderes empobreceram seus próprios cidadãos enquanto se enriqueciam de forma corrupta.
Eles proclamam “Morte à América” desde que chegaram ao poder e mataram centenas de militares americanos na região, além de financiarem o terrorismo que matou civis no Oriente Médio e em lugares tão distantes quanto a Argentina.
O governo iraniano representa uma ameaça porque combina a ideologia assassina com ambições nucleares. O Irã desafiou a fiscalização internacional repetidamente ao longo dos anos. Desde o ataque de junho, o governo tem mostrado sinais de retomar sua busca por tecnologia para armas nucleares. Presidentes americanos de ambos os partidos têm corretamente assumido o compromisso de impedir que Teerã consiga uma bomba do tipo.
Reconhecemos que cumprir esse objetivo poderia justificar uma ação militar em algum momento. Por um lado, as consequências de permitir que o Irã siga o caminho da Coreia do Norte —e adquira armas nucleares depois de anos desgastando a paciência internacional— são grandes demais. Por outro, os custos de confrontar o Irã por causa de seu programa nuclear parecem menos assustadores do que antes.
O Irã, como David Sanger do jornal The New York Times explicou recentemente, “está passando por um período de notável fraqueza militar, econômica e política”.
Desde os ataques de 7 de outubro de 2023, Israel atenuou as ameaças do Hamas e do Hezbollah (dois dos grupos terroristas apoiados pelo Irã), atacou o Irã diretamente e, com ajuda de aliados, repeliu sua resposta.
O novo reconhecimento das limitações do Irã ajudou a dar aos rebeldes na Síria a confiança para marchar sobre Damasco e derrubar o regime de Assad, um aliado de longa data do Irã. O governo iraniano fez quase nada para impedir. Essa história recente demonstra que a ação militar, apesar de todos os seus custos terríveis, pode ter consequências positivas.
Um presidente americano responsável poderia apresentar argumentos plausíveis para mais ações contra o Irã. O cerne precisaria conter uma explicação clara da estratégia, bem como a justificativa para atacar agora, mesmo que o Irã não pareça estar perto de conseguir uma arma nuclear. Essa estratégia envolveria a promessa de buscar aprovação do Congresso e colaborar com aliados internacionais.
Trump nem sequer está tentando essa abordagem. Ele está dizendo ao povo americano e ao mundo que espera sua confiança cega. Ele não conquistou essa confiança.
Em vez disso, ele trata aliados com desdém.
Mente constantemente, inclusive sobre os resultados do ataque de junho ao Irã. Não cumpriu suas próprias promessas de resolver outras crises na Ucrânia, em Gaza e na Venezuela. Demitiu líderes militares de alto escalão por não demonstrarem lealdade aos seus caprichos políticos. Quando seus indicados cometem erros ultrajantes —como o secretário de Defesa, Pete Hegseth, compartilhando detalhes antecipados de um ataque militar aos houthis, um grupo apoiado pelo Irã, em um chat em grupo— Trump os protege de qualquer responsabilização.
Sua administração viola o direito internacional ao, entre outras coisas, disfarçar um avião militar como avião civil e atirar em dois marinheiros indefesos que sobreviveram a um ataque inicial.
Uma abordagem responsável também envolveria uma conversa detalhada com o povo americano sobre os riscos. O Irã continua sendo um país fortemente militarizado. Seus mísseis de médio alcance podem não ter causado muito dano a Israel no ano passado, mas o país mantém muitos mísseis de curto alcance que poderiam sobrecarregar qualquer sistema de defesa e atingir a Arábia Saudita, o Catar e outros países próximos.
Trump reconheceu isso em seu vídeo noturno, dizendo: “As vidas de corajosos heróis americanos podem ser perdidas e podemos ter baixas”.
Ele deveria ter tido a coragem de dizer isso em seu discurso do Estado da União na terça-feira (24), entre outras ocasiões. Quando um presidente pede que tropas e diplomatas americanos arrisquem suas vidas, ele não deveria escapar do assunto.
Reconhecendo a irresponsabilidade de Trump, alguns membros do Congresso tomaram medidas para restringi-lo em relação ao Irã.
Na Câmara, o deputado Ro Khanna, democrata da Califórnia, e Thomas Massie, republicano de Kentucky, propuseram uma resolução destinada a impedir Trump de iniciar uma guerra sem aprovação do Congresso.
A resolução deixa claro que o Congresso não autorizou um ataque ao Irã e exige a retirada das tropas americanas em 60 dias. O senador Tim Kaine, democrata da Virgínia, e o senador Rand Paul, republicano de Kentucky, estão patrocinando uma medida semelhante em sua câmara. O início das hostilidades não deveria dissuadir os legisladores de aprovar esses projetos. Uma afirmação robusta de autoridade pelo Congresso é a melhor maneira de restringir o presidente.
O fracasso de Trump em articular uma estratégia para este ataque criou níveis chocantes de incerteza sobre ele. Ele pediu mudança de regime e não ofereceu nenhuma indicação de por que o mundo deveria esperar que esta campanha termine melhor do que as tentativas de mudança de regime no século 21 no Iraque e no Afeganistão.
Essas guerras derrubaram governos, mas compreensivelmente azedaram a opinião pública americana sobre operações militares sem prazo definido e de interesse nacional incerto, e amargurou as tropas que lealmente serviram nelas.
Agora que a operação militar começou, desejamos acima de tudo a segurança das tropas americanas encarregadas de conduzi-la e o bem-estar dos muitos iranianos inocentes que há muito sofrem sob seu governo brutal. Lamentamos que Trump não esteja tratando a guerra como o assunto grave que ela é.
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📰 Fonte: UOL Notícias
🔗 Link original: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/02/por-que-comecou-…
Publicado automaticamente pelo Sistema Itaquera News em 28/02/2026 às 17:35


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