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Copa do Mundo


A 100 dias do pontapé inicial, Copa 2026 lida com guerra, tráfico e cortes

  • Mundial pode perder Irã devido ao conflito aberto entre o país e os EUA, onde cidades acusam falta de verba
  • México, que também é sede, convive com tensão provocada pela morte de El Mencho, líder do cartel de Jalisco
Estádio grande ao fundo com estrutura metálica visível, escultura preta com formas pontiagudas à esquerda em área aberta. É o estádio Azteca, na Cidade do México. Pássaros voam no céu azul claro, carros estacionados à direita e poste de iluminação no centro da imagem.

O estádio Azteca, na Cidade do Mèxico, que abrigou duas finais de Copa do Mundo (1970 e 1986) e será palco da abertura da deste ano, no dia 11 de junho –

Yuri Cortez – 23.fev.26 /

AFP

Daqui a exatos cem dias, no dia 11 de junho, a 23ª edição da Copa do Mundo dará seu pontapé inicial, com México x África do Sul, no estádio Azteca, na Cidade do México.

O que deveria ser apenas uma marca simbólica na contagem regressiva para o maior evento futebolístico do planeta, pela primeira vez realizado em conjunto por três países (EUA, Canadá e México) e pela primeira vez com 48 seleções (um recorde), salienta uma série de problemas e preocupações.

Os mais sérios são a possibilidade, hoje considerável, de uma seleção já classificada não participar, e uma das sedes, a mexicana Zapopan, estar colada a Guadalajara, epicentro de uma onda de violência no país após a morte do narcotraficante El Mencho, líder do cartel Jalisco Nova Geração.

Quatro guardas da Guarda Nacional do México, em uniforme cinza com coletes pretos e capacetes, armados, patrulham uma rua com paredes grafitadas em Guadalajara. Dois estão próximos a uma esquina, um está de costas perto de uma porta e outro caminha pela calçada.
Soldados da Guarda Nacional do México em Guadalajara, que vive dias de tensão depois da morte do narcotraficante Nemesio Oseguera Cervantes (El Mencho)

Ulises Ruiz – 1º.mar.26/AFP

Há outros obstáculos menos gritantes, que contudo não devem ser minimizados, pois podem ter consequências que afetem tanto as seleções como os fãs que estarão na América do Norte para o Mundial.

A Fifa, organizadora da Copa, por ora age como observadora, ao mesmo tempo em que, nos bastidores, tenta traçar planos que possam mudar rumos do torneio, se necessário, sem consequências drásticas para o mesmo.

A entidade espera que a guerra recém-iniciada EUA /Israel x Irã, que resultou de cara na morte do líder supremo na nação persa, o aiatolá Ali Khamenei, não impeça o país asiático de participar da Copa, porém a possibilidade existe e hoje é grande, pois a seleção iraniana tem jogos marcados para cidades dos EUA (dois em Los Angeles, um em Seattle).

Caso o Irã se desligue (ou seja desligado) do Mundial, será necessário substituí-lo às pressas, possivelmente dando a vaga a uma seleção da AFC (Confederação Asiática de Futebol) que não a conquistou em campo, o que resultará em desgaste não desejado pela Fifa. Alguém festejará, outros alguéns reclamarão bastante.

O chefe da federação, o suíço-italiano Gianni Infantino, está também na torcida para que os ânimos no México arrefeçam logo. A tensão, que continua elevada, pode se prolongar até que grupos rivais no tráfico solucionem disputas internas. É um panorama que afeta a segurança pública, item primordial em uma Copa do Mundo.

Segurança (a falta dela) que pode causar estragos no vizinho Estados Unidos. Cidades-sede (Houston, Kansas City, Foxborough, Miami) relatam que o não repasse de verbas federais, sob contingenciamento devido a limitações orçamentárias, atravancarão as operações de patrulhamento e fiscalização (contratação, planejamento, logística).

Pior: esse contexto ameaça a realização de festas de entretenimento. Já pensou não haver “fan fests”?

Seria desfigurar um cenário tradicional no ambiente das Copas, que existe desde a da Alemanha, em 2006, e que faz a alegria de milhares de sem-ingresso –tão entusiastas de futebol como os que estarão nos estádios–, dependentes de telões em praças públicas para torcer, vibrar, participar, viver o Mundial. Sem contar o aspecto comercial (venda de produtos temáticos e de alimentos) e o da saudável socialização entre pessoas da mesma ou de diferentes nacionalidades.

Em síntese, para o torcedor: menos diversão para quem fica fora do estádio, mais fila para quem vai ao estádio (menor efetivo significa mais tempo na revista).

Torcedores acompanham a final da Copa do Mundo de 2022, no Qatar, em Fan Fest organizada no parque Al Bidda, em Doha
Fan Fest no parque Al Bidda, em Doha (Qatar), no dia da final da Copa do Mundo de 2022 (Argentina x França)

Ibraheem Al Omari – 18.fev.22/Reuters

Esses são os principais gargalos, que se somam a outros anteriormente previstos: calor extremo (o verão norte-americano é rigoroso), barreiras na emissão de vistos nos EUA, apreensão com a atuação intimidatória da polícia de imigração (ICE), desafios no transporte aéreo e terrestre, resultado de um Mundial de dimensão territorial imensa (três países), e questões relacionadas à sustentabilidade ambiental.

Cem dias passam rápido. Serão, porém, cem longos dias para os organizadores equalizarem questões que podem fazer a Copa de 2026 ser lembrada com adjetivos que vão de desconfortante a caótica.

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