Descrição de chapéu



Valdinei Ferreira

A esquerda ama a mudança, menos a evangélica

  • Intenção de celebrar Lula pode ter gerado efeito contrário ao esperado pela escola carioca
  • Símbolo cristão foi tratado com desrespeito, enquanto religiões africanas recebem reverência
Valdinei Ferreira

Valdinei Ferreira

É doutor em sociologia pela USP e fundador do Mapa Centrante

Preciso falar sobre conservadores e progressistas antes de falar dos muitos incômodos diante do desfile em homenagem ao presidente Lula promovido pela Acadêmicos de Niterói na Marquês de Sapucaí.

Vamos às definições: conservadores desejam preservar e manter algo que vem do passado e os progressistas são orientados para a mudança, logo, desejam sobretudo avançar e promover mudanças na ordem social.

As definições parecem claras enquanto não são confrontadas com os fatos históricos. Vejamos: o desfile promovido pela Acadêmicos de Niterói celebrava a trajetória bem-sucedida de um político do campo progressista, o presidente Lula. Lembremos que os progressistas estão oficialmente do lado das mudanças.

Carro alegórico iluminado exibe estátua de homem de terno com punho erguido, cercado por bandeiras do Brasil e do estado do Rio de Janeiro. Pessoas fantasiadas participam do desfile à noite.
Desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, com o enredo ‘Lula, o operário do Brasil’, no primeiro dia de desfile do Grupo Especial do Rio de Janeiro, na Marques de Sapucaí

Eduardo Anizelli – 15.fev.26/Folhapress

Entretanto, a ala “Neoconservadores em conserva” foi uma crítica da escola ao segmento evangélico, justamente o grupo que representa uma das maiores mudanças religiosas nas últimas décadas no país. É inevitável a pergunta: os progressistas no Brasil são a favor das mudanças sociais, excluída a mudança social representada pelos evangélicos? Se for assim, cabe ainda indagar: os progressistas da Acadêmicos de Niterói são conservadores em matéria de religião?

É previsível que se argumente: os “neoconservadores em conserva” representam uma oposição religiosa às recentes transformações comportamentais defendidas pelos progressistas. O exemplo mais notório dessa resistência conservadora é a oposição ao casamento homoafetivo. De fato, dados do Datafolha (2018) mostravam que 68% dos evangélicos eram contrários à união civil entre pessoas do mesmo sexo.

No entanto, uma pesquisa mais recente do Datafolha (2024) revela uma mudança na percepção: 43% dos evangélicos eram favoráveis à adoção de crianças por casais gays, enquanto 42% eram contrários. Os dados acima mostram que há nuances no conservadorismo evangélico.

Portanto, retratar os evangélicos como defensores de um único tipo de “família em conserva” contribui para fortalecer o campo político que ganha vendendo a ficção de que esse segmento é monolítico e está constantemente ameaçado pela esquerda progressista.

O destaque dado no desfile ao conservadorismo na pauta dos costumes foi desproporcional. Embora o discurso evangélico seja conservador em relação aos costumes, essas instituições, na prática, introduzem aspectos modernizantes no comportamento social, como a promoção da igualdade de gênero, o incentivo à escolaridade e a racionalização econômica. Há décadas, pesquisas antropológicas e sociológicas corroboram esse impacto.

Ainda no esquema simplista —conservadores querem manter o passado e progressistas batalham por mudanças— a Acadêmicos de Niterói poderia ter destacado os vínculos positivos entre os governos do presidente Lula e os evangélicos. Exemplos disso incluiriam: a acentuada expansão das igrejas evangélicas, as concessões de canais de rádio e televisão para igrejas e o Dia da Marcha para Jesus (2009) e o Dia da Música Gospel (2024).

A decisão mais questionável da Acadêmicos de Niterói foi incluir uma Bíblia nas mãos dos componentes da ala intitulada “Neoconservadores em conserva”. A Bíblia é o símbolo religioso compartilhado por todas as igrejas evangélicas.

É inevitável o contraste: enquanto os símbolos das religiões de matriz africana são apresentados nos desfiles de outras escolas com grande beleza estética e reverência, o livro sagrado cristão foi reproduzido de maneira caricata e reduzido a “manual” dos preconceitos propagados pelas “famílias em conserva”.

Não consigo vislumbrar as consequências eleitorais do desfile e, tampouco, os efeitos da ala “neoconservadores em conserva” no voto do segmento evangélico nas próximas eleições.

Entretanto, se a intenção era celebrar a grandeza de Luiz Inácio Lula da Silva, o político de maior sucesso na história do país, o efeito pode ter sido o contrário, pois o Lula da Marquês de Sapucaí ficou do tamanho do presidente e candidato Bolsonaro que desfilou a cavalo na Festa do Peão em Barretos, em 2022.

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