Cecilia Machado

Economista-chefe do Banco BoCom BBM e professora do departamento de economia da PUC-Rio



Salvar artigos

Recurso exclusivo para assinantes

assine
ou
faça login

Cecilia Machado

Cerco a supersalários é parte de ajuste no sistema de Justiça

  • Gastos acima do teto não são o único excesso
  • Número de novos processos na Justiça do Trabalho cresceu 50% desde 2021

A suspensão do pagamento de verbas indenizatórias sem previsão legal no funcionalismo público é uma resposta institucional que se tornou possível sobretudo porque, nos últimos anos, um mínimo de transparência passou a permitir a quantificação desses excessos, hoje estimados em ao menos R$ 20 bilhões anuais e concentrados no Poder Judiciário e no Ministério Público.

Mas os supersalários não são o único excesso produzido pelo nosso sistema de Justiça. Uma abordagem mais ampla exige olhar também para resultados —isto é, para a relação custo-efetividade do gasto.

Embora os relatórios produzidos para dar transparência às atividades da Justiça —como o Justiça em Números— sejam incapazes de trazer qualquer discussão sobre a remuneração extrateto, as demais informações contidas neles são insumos importantes para a construção de uma visão crítica da nossa Justiça.

A imagem mostra um grupo de seis pessoas sentadas em um banco de concreto, de costas, observando o Palácio da Alvorada, que é um edifício moderno com grandes janelas e uma estrutura arquitetônica distinta. O céu está nublado e há uma estátua visível à direita. O ambiente é amplo, com cercas de segurança visíveis na frente do palácio.
A Praça dos Três Poderes, onde fica a sede do Judiciário

Pedro Ladeira – 25.abr.25/Folhapress

Entre eles, chama a atenção o excesso de litigiosidade: são hoje mais de 80 milhões de processos em andamento. Em termos per capita, isso equivale a cerca de 15 vezes o número observado na Europa.

É claro que isso é um problema. Quando a Justiça precisa dar sua palavra final em muitas disputas, os custos para a sociedade se ampliam, seja para as empresas, nas suas decisões de investimento e de contratação, seja para as pessoas, em acessos a benefícios sociais, seja para o próprio governo, nas decisões de Orçamento que disputam espaço com o pagamento de precatórios.

Mas o que estaria por trás de tanta litigiosidade? De um lado, é possível que ela reflita demandas sociais que requerem um Judiciário ativo. De outro, um Judiciário ativo também estimula a litigiosidade. O que vem primeiro, o ovo ou a galinha?

Nesse aspecto, vale notar o enorme crescimento de novos processos tramitando na Justiça do Trabalho: cerca de 50% desde 2021. Há crescimento de emprego no período, mas ele também coincide com o reestabelecimento de incentivos à litigância, a exemplo da decisão do próprio STF que declarou inconstitucionais trechos da reforma trabalhista de 2017 que permitiam a transferência dos custos processuais para a parte perdedora.

Prédio alto e moderno do Poder Judiciário de Santa Catarina em Florianópolis, com fachada de concreto e janelas verticais. Placa preta com letras brancas indica o local na entrada, que tem portão verde e guarita. Céu azul com poucas nuvens e árvores ao redor.
Tribunal de Justiça de Santa Catarina; corte tem oito dos dez servidores com maiores salários

Cristiano Estrela/TJ-SC

Com tanta litigiosidade, o número de processos baixados –indicador frequentemente utilizada por membros do Judiciário para aferir produtividade– torna-se pouco informativo. Isso porque quanto maior a litigiosidade, maior a chance de processos com baixa chance de sucesso ingressarem no sistema de Justiça, o que por si só aumenta a chance de baixa. Além disso, o número de processos baixados inclui processos remetidos a outras instâncias, que ainda não receberam uma decisão definitiva. Neste caso, outras métricas, como a resolução ao final de todas as instâncias, a taxa de reforma das sentenças, ou mesmo a percepção da sociedade sobre o desempenho do Judiciário, medido por pesquisas de opinião, podem se mostrar mais apropriadas.

Somando Judiciário (R$ 146,5 bilhões) e Ministérios Públicos da União e dos Estados (R$ 9 e 28 bilhões), os gastos alcançam 1,6% do PIB. Em perspectiva comparada, o Brasil apresenta o maior gasto entre 53 países considerados em uma análise do Tesouro Nacional, acima da média na amostra (em 0,37% do PIB), mas também acima de países emergentes –como a África do Sul (0,42%)–, de origem cultural semelhante –como Portugal (0,35%)– e de países que possuem legislações altamente protetivas que podem demandar maior atenção da Justiça –como a França (0,2%).

O retrato que emerge é o de um sistema de alto custo e de poder resolutivo questionável. A litigiosidade elevada, a demora nas decisões e a insegurança jurídica desestimulam o investimento, encarecem o crédito e aumentam o custo de fazer negócios. São elementos importantes do chamado custo Brasil. Por que gastamos tanto com uma Justiça que apresenta tantos gargalos em seu funcionamento?

LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Tópicos relacionados

Leia tudo sobre o tema e siga:

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.