Europa se arma e reage à guerra no Irã mantendo distância prudente de Trump
Europa se arma e reage à guerra no Irã mantendo distância prudente de Trump
📰 Fonte: Geral – rss.uol.com.br
Europa se arma e reage à guerra no Irã mantendo distância prudente de Trump
Países europeus começaram a assumir esta semana maior protagonismo na guerra contra o Irã, em um claro sinal de que o conflito iniciado pelos EUA e por Israel em 28 de fevereiro está se espalhando e se tornando mais complexo, em vez de caminhar para uma solução.
Navios de guerra de cinco países europeus – França, Reino Unido, Grécia, Itália e Holanda – estão sendo enviados para proteger o Chipre, membro da União Europeia que hospeda uma base militar britânica bombardeada por um drone na segunda-feira (2). De acordo com o governo do Reino Unido, o equipamento usado no ataque foi “similar ao Shahed”, de fabricação iraniana, mas o governo cipriota não credita que ele tenha partido do Irã, mas do Líbano, onde opera o grupo xiita Hezbollah, aliado de Teerã.
A confusão de versões no Chipre demonstra o emaranhado de atores que começam a protagonizar essa guerra, conforme ela se espalha. Depois de ter envolvido países do Golfo Pérsico, como Arábia Saudita, Iraque, Kuait, Qatar, Bahrein e Omã, agora foi a vez de o Azerbaijão – que fica em outra direção, na região do Cáucaso – ser atingido por drones, o que fez com que o governo local prometesse retaliação.
Na quarta-feira, a Turquia, país que faz parte da aliança militar europeia, disse que o sistema de defesa antiaérea da Otan, instalado no país, detectou e interceptou um míssil dirigido contra seu território. Os turcos emitiram um comunicado prudente, sem apontar a origem do ataque, mas dizendo que o país está pronto a empregar todos os meios necessários para se defender.
O ataque à Turquia ocorreu no mesmo dia em que a França despachou para a região seu porta-aviões nuclear Charles de Gaulle, enquanto a Espanha mobilizou sua fragata Cristóvão Colombo, equipada especialmente para combater drones.
O presidente francês, Emmanuel Macron, anunciou que está disposto a ceder veículos blindados para que as Forças Armadas do Líbano debelem o Hezbollah – grupo armado xiita que mantém fortes ligações com o Irã e que, a partir do sul do território libanês, ataca o norte de Israel. Na quinta-feira (5), uma aeronave civil da Air France que havia decolado do Líbano para repatriar cidadãos franceses teve de dar meia volta ao se deparar com disparos de mísseis ao passar pelo espaço aéreo do Egito.
“Tudo deve ser feito para impedir que esse país próximo da França (Líbano) seja arrastado para a guerra”, disse o presidente da França referindo-se aos laços históricos com a ex-colônia. Além de bombardear alvos de Hezbollah no sul do Líbano, Israel estendeu os ataques até a capital, Beirute, e deu início a uma incursão terrestre na região, reavivando uma disputa histórica por essa parte do território de fronteira.
Todo esse incremento da participação militar europeia no conflito tem dois objetivos: fortalecer a defesa de países aliados que estão sendo atacados pelo Irã e restabelecer a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz, por onde passa 20% da produção mundial de petróleo. Embora todas essas potências europeias envolvidas agora no conflito sejam aliadas dos EUA e membros da Otan, isso não significa que elas estejam se envolvendo diretamente na ofensiva que americanos e israelenses vêm realizando desde 28 de fevereiro.
Na verdade, o posicionamento dos líderes europeus tornou-se abertamente crítico a Donald Trump neste conflito, tanto pela ilegalidade do ataque inicial ao Irã quanto pela guerra comercial que ele declarou em seguida à Espanha, depois que o primeiro-ministro Pedro Sánchez se negou a ceder a base militar da Andaluzia como trampolim para as ações ofensivas dos EUA no Oriente Médio.
Em pronunciamento em cadeia nacional na terça-feira, Macron foi claro a esse respeito: “Os Estados Unidos e Israel decidiram lançar operações militares conduzidas à margem do direito internacional, o que nós não podemos aprovar”. A posição do atual presidente francês ecoa decisão tomada em 2002 pelo então presidente Jacques Chirac, que se negou a participar de uma coalizão americana, liderada por George W. Bush, para atacar o Iraque de Saddam Hussein. Naquele tempo, como agora, a França se opôs à ilegalidade.
No conflito atual, pesa ainda o fato de que França tem acordos de cooperação em defesa com países do Golfo Pérsico que estão sendo atacados. Os franceses possuem uma base militar importante em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, que foi bombardeada logo no início da guerra. Essa base é responsável justamente pela coordenação de uma força-tarefa composta por nove países da União Europeia responsáveis por manter aberto o Estreito de Ormuz.
Essa força-tarefa, criada em 2020, é conhecida pela sigla em inglês e francês Emasoh, de Consciência Marítima Europeia no Estreito de Ormuz, cujo objetivo é monitorar e proteger o livre trânsito de embarcações na região que agora foi bloqueada pelo Irã. Além da França, outros oito países europeus fazem parte do grupo: Bélgica, Dinamarca, Grécia, Itália, Holanda e Noruega, com apoio político da Alemanha e de Portugal.
A Emasoh até dispõe de esquadra armada composta pela Marinha dos países participantes. Essas embarcações de guerra fazem o patrulhamento da área e eventualmente a escolta de navios mercantes que tenham bandeiras de um dos países que participam do consórcio. Mas, apesar das armas, a ênfase da Emasoh vinha sendo, até agora, a diplomacia, baseada num mandato de três pilares: distensão, transparência e envolvimento com “atores não estatais” – que podem ser desde empresas marítimas até grupos armados que representam risco de perturbação das operações comerciais que passem pelo Estreito.
Com o ataque americano e israelense ao Irã, a Emasoh está vendo a diplomacia passar ao segundo plano, à medida que seus países-membros começam a mobilizar suas esquadras.
Catherine Vautrin, que chefia o gabinete responsável pelas Forças Armadas e os Veteranos de Guerra da França, declarou que uma operação de desbloqueio dessa passagem “não pode ser feita de outra forma que não seja por meio de uma coalizão”.
O uso da força para liberar o Estreito de Ormuz tem precedentes. Quando os houtis do Iêmen, por exemplo, começaram a atacar navios estrangeiros no Mar Vermelho, no fim de 2023, a Emasoh pôs em prática uma força-tarefa militar engajada na Operação Agenor, composta por dois navios de combate e um avião de patrulha marítima, operando a partir dessa mesma base francesa que agora foi bombardeada em Abu Dhabi.
A França tem hoje tropas estacionadas nos Emirados Árabes Unidos, no Kuwait e na operação móvel Aspides – que existe para salvaguardar a liberdade de navegação no Mar Vermelho, no Oceano Índico e no Golfo Pérsico -, além do Djibuti, que fica no Chifre da África, e do Líbano, onde age desde 1978 como parte da Finul ou Unfil – Força Interina das Nações Unidas no Líbano.
A multiplicidade de cenários e de interesses na área é um dos motivos para Macron criticar a decisão americana de ter iniciado essa guerra ao lado de Israel. A outra razão que explica sua postura tão crítica é o fato de que, desde o início do segundo mandato de Trump, a Europa, com a França à frente, vem buscando meios de cumprir sua própria decisão de diminuir a dependência militar dos Estados Unidos.
Foi por isso que Macron manteve de pé o discurso que havia planejado fazer há meses sobre as capacidades atômicas de seu país. A fala – feita com grande pompa e repercussão internacional, na cerimônia de lançamento de um novo e poderoso submarino nuclear – foi lida por muitos como uma resposta ao contexto da guerra no Irã, mas uma fonte diplomática francesa envolvida no tema disse ao UOL, de Paris, que essa é uma leitura imprecisa. De acordo com essa fonte, a própria decisão de não cancelar o discurso foi um gesto calculado para deixar claro que “os tempos e as decisões da França não estão submetidas ao que Trump faz ou deixa de fazer”.
Assim como Macron, Sánchez também tem alardeado uma posição frontalmente contrária a Trump. Ele negou esta semana o uso da base militar da Andaluzia para que tropas americanas partissem dali para atacar o Irã, e também foi duro ao condenar a ilegalidade da ação.
Trump reagiu ameaçando a Espanha com uma guerra comercial, e os europeus responderam em conjunto, se dizendo “prontos a reagir” a uma medida contra um de seus membros. “A Comissão Europeia vai agir para assegurar que os interesses da União Europeia sejam plenamente protegidos”, disse, por meio de nota, o principal órgão executivo do bloco.
Esse engajamento crítico europeu tem, no entanto, duas dissidências. A menor delas é a do primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, que, depois de ter negado a cessão de bases britânicas às tropas dos Estados Unidos, acabou recuando. A ambiguidade de Starmer se deve ao fato de os britânicos terem uma profunda dependência da cooperação militar com os americanos para manter de pé seu arsenal e sua inteligência.
Se o Reino Unido responde por essa posição mais morna e dubitativa, a Alemanha, por outro lado, assumiu o papel mais dissonante em relação a seus demais parceiros no Velho Continente.
O chanceler Friedrich Merz chegou a insinuar que o Irã não deveria sequer gozar das proteções outorgadas pelo direito internacional. Em uma longa entrevista à imprensa, na segunda-feira, ele afirmou que “agora não é a hora” para que os europeus queiram “dar aula” sobre legalidade aos Estados Unidos e Israel.
A despeito do que pensa o chanceler alemão, atos de agressão são proibidos pela Carta da ONU desde 1945, e o recurso à força entre os Estados só é autorizado em caso de legítima defesa contra uma agressão efetivamente sofrida ou após aprovação do Conselho de Segurança – duas condições ausentes nos bombardeios de Irã e Estados Unidos contra Israel.
O posicionamento de Merz parece ter agradado Trump, que, ao recebê-lo na Casa Branca, nesta terça-feira, disse que o chanceler alemão é um bom “amigo”, com o qual tem “uma grande afinidade”; tratamento muito diferente daquele dispensado, por outro lado, à Espanha.
*João Paulo Charleaux é jornalista e autor do livro “As Regras da Guerra”, da Zahar Editora
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📌 Fonte original: https://noticias.uol.com.br/opiniao/coluna/2026/03/06/europa…
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