Moradores da zona leste de SP dizem enfrentar saga na busca de auxílios após enchentes


Moradores da zona leste de SP dizem enfrentar saga na busca de auxílios após enchentes
- OUTRO LADO: Segundo gestão Ricardo Nunes (MDB), foram investidos R$ 9,3 bilhões em obras na região
- Quem vive perto do córrego Tiquatira afirma que alagamentos são comuns ali
São Paulo
Perto do Natal de 2024, a aposentada Deusa Marangoni, 54, viu se repetir uma cena: a água invadiu sua casa e danificou móveis e a estrutura.
Não longe dali, 1 dos 2 salões de festa da empresária Bruna Martiniani, 41, também foi atingido pela água. Ela estima um prejuízo de R$ 2.000 apenas com o estrago na decoração.
As situações não são raras para as duas, nem para outros moradores da região da Vila Marieta, na zona leste de São Paulo, perto do córrego Tiquatira.
Para tentar resolver o problema ou ao menos mitigar seus efeitos, moradores relatam enfrentar uma espécie de saga contra a burocracia da prefeitura.
Na enchente de 2024, Deusa elaborou uma carta pedindo a isenção do IPTU por morar em área de risco de alagamentos. Nela, listou prejuízos com móveis, a estrutura da casa e outros. Não conseguiu.
O mesmo aconteceu com Bruna, que fez solicitações em 2021 e 2024 e também diz não ter obtido o benefício, que poderia ser revertido para cobrir prejuízos ou custos com reformas. “E qual a justificativa? Não tem, apenas a resposta negativa.”
Deusa, moradora da rua São João Câncio, diz que já perdeu as contas de quantas vezes foi à Subprefeitura da Penha, situada a dez minutos de caminhada, para buscar ajuda e serviços.
“A gente diz que quer fazer uma reclamação e perguntam se a gente ligou para a Defesa Civil. Eu digo que não sabia, mas que tenho fotos e vídeos e documentos. E aí eles dizem ‘tem que abrir uma reclamação na prefeitura central’, mas eu respondo que não faz sentido ir até lá se os responsáveis estão aqui. E é tudo de boca, nada protocolado”, afirma a aposentada.
“Eu moro aqui há 25 anos e nunca vi Defesa Civil”, diz Bruna, que mora perto do Parque Linear do Tiquatira. A estrutura abrange toda a extensão da avenida e passa por um clube da comunidade que tem um campo de futebol.
Em nota, a Prefeitura de São Paulo diz que desde 2021 foram investidos R$ 9,3 bilhões em obras, serviços, manutenções e intervenções no sistema de drenagem.
A gestão Ricardo Nunes (MDB) afirma ter entregue nove reservatórios (seis piscinões e três pôlderes) e que outros oito estão com obras em andamento.
“Na região do Tiquatira, dois reservatórios estão previstos no Plano Diretor de Drenagem e encontram-se em fase de análise ambiental”, afirma trecho da nota.
Quem anda pela região pode ver que a galeria do córrego está colapsando, segundo os moradores. Eles dizem ainda ver a água atingir a UBS (Unidade Básica de Saúde) local, que também tem uma AMA (Assistência Médica Ambulatorial).
No centro esportivo está previsto 1 dos 2 reservatórios em estudos da prefeitura, que incluem a canalização da bacia do Tiquatira e limpeza. O objetivo, segundo a proposta, é criar uma estrutura subterrânea para ajudar no controle do fluxo do córrego e reduzir a necessidade de derrubada das árvores, permitindo, inclusive, que o campo volte a ser usado após o fim da obra.
Mas tanto para Bruna quanto para a advogada Marta Lobo, 57, que diz enfrentar de 3 a 5 enchentes por ano, ainda não há informação clara sobre quando essas estruturas ficarão prontas.
Na época em que o avô de Marta construiu uma casa onde hoje fica a São João Câncio, não havia essa recorrência de enchentes, segundo a advogada.
Ainda de acordo com ela, os episódios se agravaram após a construção de uma passagem para a água por baixo da avenida São Miguel, no cruzamento com a Tiquatira.
“A gente todo ano passa por três, quatro, cinco enchentes aqui, dependendo do volume de chuva que tem de dezembro até março. É um período em que a gente fica de cabelo em pé.”
Com a água a 15 ou 20 centímetros de altura dentro de casa durante as enchentes ou mesmo entrando pela tubulação de esgoto, Marta viu as enxurradas causarem outro impacto, mas em seu filho, Murilo, 10. “Quando começava a chover, ele ficava desesperado. Se eu não estivesse em casa, então, ele me ligava berrando.” Para lidar com a angústia, o menino precisou de acompanhamento psicológico, porém ainda fica atento aos primeiros sinais de temporal.
O problema fez os moradores se organizarem ao menos em grupos de aplicativo de mensagem para trocarem informações e tentarem salvar os pertences uns dos outros.
Em meio a essa mobilização está Pedro Alexandre Souza, 32, que diz ter visitado a subprefeitura e a Controladoria-Geral do Município.
Além de obras estruturais, orientação da Defesa Civil e a criação de um protocolo de atendimento para os atingidos por enchentes, ele avalia que seria importante uma reforma nos sistemas de drenagem da rua Bacaína, onde mora.
“São poucos bueiros para as águas pluviais, que não estão mais comportando o volume da chuva”, diz ele, em queixa similar à da vizinha de bairro Deusa, que mora na São João Câncio. “Só tem dois bueiros. Não dão conta.”
Na nota, a gestão Nunes diz que a Subprefeitura Penha realiza a limpeza do Córrego Tiquatira trimestralmente, sendo adotado um plano intensivo em situações emergenciais, conforme avaliação técnica.
“Esse cronograma de manutenção estende-se às bocas de lobo da região, com equipes operacionais atuando a cada três meses com o auxílio de caminhão hidrojato para a desobstrução e sucção da rede de drenagem”, afirma.
No número 39 da rua Bacaína, diz a nota, a última limpeza ocorreu em 4 de dezembro passado, com a próxima execução programada para 7 de março. “As rotinas podem ser ajustadas conforme a necessidade identificada em vistorias ou novas ocorrências.”
Sobre o monitoramento dos rios e córregos na região, afirma, o Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE) dispõe de um conjunto de estações que monitora, em tempo real, o volume pluviométrico e os níveis dos principais cursos d’água e dos piscinões.
“O trabalho de monitoramento também conta com o apoio das equipes de trânsito”, diz. “A Defesa Civil realiza durante o ano ações contínuas de treinamento e orientação da população, priorizando áreas classificadas como de risco, onde há mapeamento específico e planos de contingência estabelecidos.”
Para isenção do IPTU, segundo a administração municipal, o morador deve comparecer à Subprefeitura Penha e protocolar o pedido por meio de formulário específico. Clique aqui para ter mais informações.
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📰 Fonte: UOL Notícias
🔗 Link original: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/02/moradores-da…
Publicado automaticamente pelo Sistema Itaquera News em 23/02/2026 às 10:13

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