Mauro Calliari

Administrador de empresas pela FGV, doutor em urbanismo pela FAU-USP e autor do livro ‘Espaço Público e Urbanidade em São Paulo’



Salvar artigos

Recurso exclusivo para assinantes

assine
ou
faça login

Mauro Calliari

Descrição de chapéu

São Paulo




Cracolândia


Nova sede do governo de SP tem bom projeto arquitetônico; falta o urbanístico

  • A volta para Campos Elíseos é uma boa escolha, mas há questões a serem resolvidas
  • Governador também poderia abandonar Palácio dos Bandeirantes e se mudar para o centro

O Novo Centro Administrativo do Governo do Estado de São Paulo vai mesmo sair do papel. Semana passada, foi escolhido o consórcio responsável pela construção. A previsão é que as obras sejam concluídas até 2030.

O Governo Estadual tem caixa, intenção e anda rápido. Diante da inevitabilidade da ideia, vale a pena se perguntar: será que o novo empreendimento vai mesmo construir cidade e trazer urbanidade para o centro?

Para começar, é bom constatar que o movimento esteja sendo em direção ao centro e não para fora dele. A volta do governo para os Campos Elíseos é uma boa escolha. O bairro já abrigou a sede do Governo Estadual no início do século 20, tem boa infraestrutura e oportunidades de transformação do território que sofreu com a cracolândia durante décadas.

Figura simula imagem aérea destacando prédios no entorno de área arborizada
Projeto vencedor para o novo centro administrativo do governo do estado de São Paulo no entorno do parque Princesa Isabel

Divulgação IAB-SP

A escolha do projeto se deu após um concurso organizado em conjunto com o IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil). O concurso gerou mais de 40 propostas. O projeto vencedor, do escritório Ópera Quatro, tem fachadas ativas, integração entre os prédios, uma esplanada verde, porosidade e caminhabilidade.

Se o projeto arquitetônico do Centro Administrativo parece muito bem feito, está faltando o projeto urbanístico para o entorno.

O que vai existir em volta dos prédios administrativos? Como garantir que essa região não fique esvaziada à noite e aos finais de semana, como acontece na região da Berrini, por exemplo?

Como chegarão ao trabalho os 22 mil funcionários públicos, os 1.300 responsáveis pela administração e zeladoria e os milhares de visitantes? Todo mundo vai caminhar da estação da Luz até lá?

Como desestimular as pessoas a usarem o carro se o aumento de vagas de garagem foi um dos responsáveis pela revisão do projeto? Quantos dos funcionários alocados no Centro Administrativo vão realmente querer morar por ali e o que é preciso redimensionar para que isso aconteça (creches, escolas, centros de saúde etc)?

Mais do que em qualquer lugar, o centro precisa de diversidade e isso só se consegue com residências de todos os tipos desde as habitações de interesse social até os apartamentos de classe média. Como garantir a implementação de projetos previstos de habitação social diante da inevitável valorização dos imóveis? Como garantir que quem more na região não seja expulso?

Provavelmente essas questões estão ligadas à distância entre o projeto estadual e os planos municipais. O Plano Diretor de São Paulo, revisado em 2023 depois de milhares de horas de reuniões, audiências públicas, brigas na Câmara Municipal não faz nenhuma referência ao centro administrativo. O PIU (Plano de Intervenção Urbana) Setor Central, que discute o futuro do centro, também não. Essa distância traz questões práticas: como acomodar a nova demanda aos planos existentes, como os de habitação, do VLT ou as operações urbanas?

Chama a atenção o fato de que grande parte dos órgãos governamentais que serão trazidos para o centro já estão… no centro! Será que não teria sido mais eficiente reformar esses prédios (a Prefeitura tem um programa de estímulo ao retrofit) do que abandoná-los e construir tudo de novo? Quais serão os impactos no comércio do entorno do esvaziamento dos prédios atualmente ocupados pelos órgãos estaduais que mudarão de lugar?

E para terminar, há o Palácio dos Bandeirantes, que será mantido como residência do governador. Quando levou a sede para o Morumbi, em 1965, o então governador Ademar de Barros disse que a mudança levaria o governo para “um pouco fora do bulício da cidade, para produzir mais”. Não faz mais sentido esse distanciamento anacrônico. O governador poderia dar o exemplo, vir para o centro também e abrir mão do Palácio dos Bandeirantes. Como uma universidade, um hospital ou uma enorme área verde, o local serviria melhor à cidade do que hoje.

LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Tópicos relacionados

Leia tudo sobre o tema e siga:

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.